Cotidiano
25/03/2008 - 02h22

Imigração se tornou obsessão na Europa, diz Amorim

da Folha Online

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a questão da imigração se tornou uma obsessão na Europa, se referindo aos casos de repatriação de brasileiros na Espanha, nos últimos meses. Em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, o chanceler disse que os incidentes são uma demonstração de intolerância, mas que o Brasil tem tratado o problema seriamente.

"Esse é um problema complexo. A questão da imigração é uma obsessão na Europa, mas eu não vou julgar se é certo ou errado. O que não pode é uma pessoa ficar três dias sem tomar banho ou ser colocada em um determinado vôo porque é mais barato", disse.

"Sempre temos tentado resolver esses problemas, mas não podemos questionar o poder soberano dos Estados da Europa. A questão principal para mim é proteger os direitos humanos dos brasileiros."

Mas o ministro minimizou uma crise com a Espanha. "Esse é um problema que estruturalmente vai continuar existindo. Quem vai ao exterior sabe que esse problema não ocorre somente na Espanha."

América do Sul

No programa, Amorim foi bastante questionado sobre os recentes conflitos na América do Sul, entre Equador, Colômbia e Venezuela. "A disposição da paz é muito grande. Todo mundo sabe que a América do Sul é um continente de paz", disse.

Amorim evitou dar declarações mais profundas sobre a crise, sem citar se defende ou não a invasão do território equatoriano pelo Exército da Colômbia ou se classifica as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como terroristas.

O ministro ressaltou que condena a ação que culminou na morte do número dois das Farc, Raul Reyes, e desencadeou uma crise entre os três países. Equador e Venezuela chegaram a romper relações com a Colômbia, mas, por meio de acordo na OEA (Organização dos Estados Americanos), os países retomaram o diálogo, com a Colômbia pedindo desculpas pela ação militar.

Sobre a posição do Brasil no conflito: "posso dizer que o Brasil não é neutro entre as Farc e o governo colombiano. Mas não concordamos que as Farc sejam consideradas uma força beligerante." Questionado sobre se as Farc são consideradas terroristas, Amorim respondeu taxativo: "não consideramos as Farc terroristas porque não temos uma lista de grupos terroristas."

Conselho de Segurança

Além de falar sobre a atuação no Haiti --onde as Forças Armadas do Brasil mantêm uma força de paz--, comentar sobre os conflitos no Tibete e responder questões sobre a Rodada Doha e o Mercosul, Amorim discorreu sobre a atuação do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

"No mundo hoje --não sou eu que digo, é o primeiro-ministro da Inglaterra, o presidente da França-- há uma clara percepção de que não dá para manter a segurança só com os cinco membros permanentes", disse o ministro, se referindo à tentativa de reforma da ONU.

"Esse é um processo lento e complicado. A ONU só foi criada por que houve uma guerra mundial. Um processo de reforma que mexa nos pontos mais sensíveis, sobretudo o CS, não é uma coisa simples. Mas estou convencido de que esse processo tem que avançar."

Sobre o Haiti, Amorim disse que o Brasil não entrou no país por causa do conselho da ONU, "mas porque interessa ajudar o Estado, com o qual temos muitas afinidades culturais. É um Estado que está correndo o risco de virar um anarcoestado".

Amorim ainda elogiou a criação do G20 (grupo de países em desenvolvimento, incluindo o Brasil) e disse ter esperanças nas decisões da Rodada Doha. "Hoje eu vejo economistas americanos virem ao Brasil e dizerem que uma das razões pela qual o país está menos suscestível às crises é porque nosso comércio se diversificou."

Durante o programa, o ministro foi bastante questionado pelo jornalista Demétrio Magnoli, geógrafo, especialista em relações internacionais e editor do jornal "Mundo, Geografia e Política Internacional". Os dois chegaram a trocar algumas farpas.

"Você não me deixa falar Demétrio, você me faz muita pergunta", reclamou o ministro. "Então deixa eu concluir minha questão", respondeu Magnoli.

Participaram do "Roda Viva" os jornalistas Eliane Cantanhêde (colunista da Folha), Lourival Sant'anna ("O Estado de S. Paulo"), Marcelo Cavallari ("Época"), Cláudio Camargo ("Isto É") e coordenadora de relações internacionais da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Maria Lúcia Pádua Lima.

 

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