Bruxa do 71 lidera família de cosplayers no Sul
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
Chamar a mãe de alguém de Bruxa do 71, em referência à vizinha isolada e ranzinza do "Chaves", é uma ofensa, certo? Errado. Cátia Villagrand tem o maior orgulho de ser chamada assim. E os filhos dela também. Cátia, os seis filhos, a nora e o cachorro da família são cosplayers, pessoas que se dedicam a imitar personagens.
"No começo eu estranhei, né? Eles [os filhos] me pediram uma fantasia, e era abril. Eu pensei 'como assim fantasia em abril, e não em fevereiro [quando acontece o Carnaval]?'", diz Cátia. Na época, a família nem tinha computador para pesquisar imagens dos personagens. O jeito foi recorrer a publicações especializadas.
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| Cátia Villagrand é cosplayer da Bruxa do 71; conheça outras fantasias utilizadas por ela |
Quatro anos depois, Cátia também entrou na brincadeira. Decidiu participar de uma disputa estadual como Bruxa do 71. "Ah, a galera ficou doida, né? Quando me viram, eram fotos e fotos. Até autógrafo eu dei como 'Senhorita Clotilde'." Foi assim que ela conseguiu uma vaga no YCC (Yamato Cosplay Cup). Em julho, ela veio a São Paulo e, entre 22 finalistas, ficou em 7º.
"No Sul, os cosplayers me conhecem como Bruxa do 71, como 'mãe cosplay'." O único morador da casa de Cátia que ainda não compete é o cachorro, por falta de autorização especial. O poodle da família é cosplayer do Super-Homem.
Cátia acredita que a mania uniu a família em um momento difícil --eles tinham acabado de deixar o Uruguai, onde moravam havia alguns anos, porque passaram dificuldades depois da morte do marido de Cátia. "Com certeza estamos mais unidos, temos mais assunto. Não se fala só nisso aqui em casa, mas é o assunto principal."
Dificuldades
O hobby não trouxe apenas alegrias à família, que vive em Porto Alegre (RS). Pelo menos dois filhos de Cátia dizem ter sofrido preconceito na escola. "Meus filhos se vestem assim [conforme a estética gótica japonesa], eu acho lindo e faço mesmo. Eu me visto assim. Eu ando de preto, uso All-Star, tenho tatuagem com motivos japoneses."
Outro problema é o custo. Somente na fantasia que irá usar no YCC deste ano, no próximo mês de julho, Cátia gastou R$ 570. Ela será o Vingador, da "Caverna do Dragão". Enquanto isso, a família vive sem telefone e sem carro. "O pessoal trabalha, divide as contas, separa o dinheiro do cosplay, dos eventos, das dívidas." Ela conta que uma filha que irá completar 15 anos também em julho próximo desistiu de fazer uma festa de aniversário para viajar com a mãe para o YCC. "É uma decisão dela, porque não podemos pagar as duas coisas."
Cátia comemora o fato de os eventos de cosplayers serem caretas --uso de álcool e drogas e brigas corporais são totalmente proibidos. "Isso os mantém longe das drogas, do cigarro, da bebida. Quando eles se encontram, não é em qualquer esquina. É no fliperama, no shopping. Eles ensaiam teatro, ensinam coisas uns para os outros."
Hoje, aos 47 anos, Cátia enfrenta o medo de fazer tatuagem. Quer colocar, na perna, o rosto da sua personagem mais famosa, a Bruxa do 71.
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