Erro em obra do Expresso Tiradentes era fácil de ser evitado
da Folha de S.Paulo
Colaboração para a Folha de S.Paulo
Uma falha muito fácil de ser evitada e, justamente por isso, incomum em grandes obras. É assim que engenheiros ouvidos pela Folha avaliam a queda de parte da estrutura do Expresso Tiradentes (antigo Fura-Fila).
De acordo com Natan Levental, coordenador do setor de estruturas do Instituto de Engenharia de São Paulo, "é muito difícil que tenha havido erro de cálculo estrutural". O mais provável, para ele, é ter havido uma falha no "processo construtivo" nesse trecho da obra.
| Apu Gomes/Folha Imagem |
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| Parte da obra do Expresso Tiradentes cede e tomba sobre o viaduto Grande São Paulo, na região da Vila Prudente, zona leste de SP |
Segundo Levental, uma estrutura apoiada em um único pilar, como é o caso daquele trecho do viaduto, funciona como uma gangorra e deve preservar o equilíbrio de forças em ambos os lados da peça.
"O trecho central tem de crescer simultaneamente. Óbvio que é impossível de se calcular com exatidão o peso da concretagem, mas uma fiscalização mais atenta, que tenha em mente o conjunto da obra, poderia ter evitado que se pusesse mais peso de um lado e que o viaduto inclinasse", diz.
O engenheiro fez uma comparação entre o acidente de ontem com o ocorrido na estação Pinheiros do metrô. "Assim como no acidente do metrô, a realidade se mostrou diferente do projeto. Esses acidentes que têm acontecido com certa freqüência, é claro que são imprevistos, mas imprevistos que alguém poderia, com um olho de raio-X, ter evitado. Poderia ter sido tomado um cuidado além da média", afirmou.
Para Levental, outro fator que proporciona a ocorrência de acidentes em grande obras da construção civil é a "fragmentação do trabalho tanto na fase de projeto quanto na fase de execução".
"Uma empresa faz o projeto, mas outra é contratada para fazer a fundação, uma outra para a estrutura intermediária e assim sucessivamente. Parece não haver ninguém que funcione como o "papai da criança"."
O professor João Bento de Hanai, do departamento de estruturas da Escola de Engenharia da USP de São Carlos, diz que esse tipo de acidente não é comum de ser observado. "Isso pode ter sido uma falha no controle da obra", disse ele. Em outras palavras, em se tratando de técnica de "concretagem em balanço sucessivo", é preciso realizar concretagens simultâneas de forma a evitar o desequilíbrio da estrutura.
Não se trata de uma falha comum, segundo ele, porque as empresas utilizam equipamentos sofisticados e essa tecnologia de concretagem teria sido desenvolvida por um brasileiro e espalhada pelo mundo.
Para Amacin Rodrigues Moreira, professor de estruturas da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), há duas hipóteses: a primeira é a de perda de estabilidade em um dos lados da estrutura por excesso de peso; a segunda é falha na execução do pilar que apóia o viaduto. No entanto, ele ressalta que, devido à lentidão com que houve a queda, a "diferença de cargas entre os trechos deve ter sido pequena e fácil de ser corrigida".
Os três profissionais ressaltam que suas avaliações são conjecturais, já que não estiveram no local para avaliar o acidente de perto.
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