Hana Matsuri reúne budistas e curiosos na Liberdade
GABRIELA QUINTELA
da Folha Online
Começou nesta segunda-feira, em São Paulo, o Hana Matsuri (também conhecido como Festa das Flores), que comemora o nascimento do Buda histórico.
Monges e sacerdotes de sete escolas budistas da cidade fizeram a cerimônia de abertura do Hana Matsuri, na praça da Liberdade, o bairro oriental de São Paulo. Até o dia 12, quem passar pelo local poderá participar do ritual de banhar a estátua do Buda com chá adocicado --que também é servido ao público pelos religiosos presentes. O costume popular é fazer um pedido ao Buda.
O próximo sábado (12) será o dia principal da Festa das Flores, quando uma imagem de um elefante branco percorrerá as ruas do bairro, num cortejo formado por crianças vestidas em trajes típicos.
História
A história da Festa das Flores começa na Índia, quando a mãe do príncipe Siddhartha Gautama (o Buda), Maya, viajava para um país vizinho. Ela estava grávida e sentiu as dores do parto quando passava por um jardim cheio de flores. Lá, ela deu à luz a criança. Neste momento, caiu uma chuva de néctar --representada no Hana Matsuri pelo chá adocicado.
O monge Francisco Handa, da Comunidade Budista Soto Zenshu da América do Sul, considera que o ato de banhar a estátua do Buda é "banhar a si mesmo, em busca de purificação". Ele explica que, para o budismo, todos são budas --mesmo quem não é budista. "Onde existe um ser vivo, existe um buda. Nós somos todos budas, mas temos uma malha de ilusão diante dos olhos. Por isso, é necessária a iluminação."
De acordo com o monge, o evento tem uma preocupação social. "A cidade de São Paulo talvez tenha um karma muito pesado, e podemos gerar um karma mais harmonioso. Isto depende das nossas atitudes. Precisamos ser pessoas mais dóceis", diz Handa, que é monge há 19 anos.
Outro monge presente na cerimônia de abertura era o japonês Kaishin Matsuoka, 31, que mora no Brasil há quatro anos. De cabelos longos, que contrastavam com a cabeça raspada dos demais monges presentes, ele fala pouco o português, e desenha um mapa do Japão para mostrar a região onde nasceu. "As pessoas são fascinantes, mas é perigoso", diz, quando perguntado sobre o Brasil.
"Paz e saúde"
Nem todos no local eram budistas. A vendedora Paula Eugênia, 34, que mora e trabalha na Liberdade, levou o filho Ian, de três anos, para beber o chá. "É interessante levar a criança, para que ela conheça um pouquinho da religião." Ian corria pela praça, enquanto esperava a bebida esfriar. De vez em quando, tocava no corpo descartável e reclamava: "Quente ainda".
Eugênia afirma ter pedido paz e saúde diante da estátua de Buda. "O resto a gente consegue."
"Tem que pagar?"
Motivos menos espirituais motivaram Maria Helena da Silva, 59, cabeleireira que trabalha em um salão do bairro da Liberdade, a participar do Hana Matsuri. "A gente precisa muito de proteção. Estamos todos muito endividados, não é?"
O evento causava estranhamento na praça. Uma pergunta muito ouvida na entrada do local era: "Tem que pagar?" Outros admitiam que participaram "só pra ver como é".
Alguns mendigos da região também experimentaram o chá.
Revitalização
No sábado, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), deve comparecer à cerimônia, e deve aproveitar a ocasião para inaugurar as obras de revitalização do bairro, de autoria do arquiteto Márcio Lupion.
De acordo com Lupion, a reforma da praça da Liberdade --a primeira parte do projeto-- deve ficar pronta em junho, antes da visita do príncipe imperial do Japão, durante os festejos pelo centenário da imigração japonesa.
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