Suspeita de agressão paterna contra menina indefesa acirra revolta
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
O assassinato da menina Isabella Nardoni e a suspeita da Polícia Civil de que o crime tenha sido praticado pelo pai dela, Alexandre Nardoni, e pela madrasta, Anna Carolina Jatobá, têm provocado manifestações de revolta exacerbadas por parte da população.
Na última sexta (18), cenas de centenas de pessoas agitadas, gritando palavras como "justiça" e "assassinos", voltaram a ganhar destaque na imprensa, quando o casal foi ao 9º DP (Carandiru), na zona norte de São Paulo, prestar depoimento. Algumas pessoas chegaram a incitar o linchamento do casal.
Assista às manifestações feitas em frente à delegacia
Segundo a polícia, a menina Isabella, 5, morreu após ser asfixiada, pela madrasta, e lançada do sexto andar, por seu pai, no último dia 29. A crueldade da ação inflamou a população e levou pessoas a acompanhar o caso de perto --com plantão na porta da casa dos familiares dos acusados-- e a exigir punição.
| Rivaldo Gomes/18.abr.2008/Folha Imagem |
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| Pai e madrasta da menina Isabella precisaram de proteção policial para sair de casa, na última sexta, quando prestaram depoimento |
Para a psicanalista e professora da Faculdade de Educação da USP Lisandre Maria Castello Branco, o crime choca principalmente por romper com todos os conceitos de segurança que cercam as figuras do pai e da mãe. "Isabella era uma criança indefesa que talvez tenha sido brutalizada por quem deveria defendê-la."
Castello Branco ressalta que "qualquer um pode matar uma criança" e que os pais são as pessoas que mais têm poder sobre elas. Ela observa, porém, que, normalmente, os pais não fazem nada contra os filhos por entenderem que o papel deles é defender, e não atacar. "É normal ter o impulso de matar por raiva. Não fazemos isso por uma simples razão: a conseqüência é maior do que podemos suportar. É o peso da culpa, o medo de pagar pelo crime", afirma a psicanalista.
O psiquiatra Victor Palomo concorda e acrescenta que a hipótese diagnóstica mais provável para o autor do assassinato de Isabella é personalidade anti-social, ou seja, pessoa que não sente culpa.
"Chama atenção a brutalidade, a frieza, os requintes de crueldade usados por quem comete um crime como esse. O raciocínio leva a pensar, hipoteticamente, em alguém que não tem culpa. Uma pessoa anti-social comete quaisquer barbaridades, mas elas não ressoam na consciência com tratamento de culpa, mas sim como qualquer outro ato."
Palomo compara a reação da população contra os atuais suspeitos, Nardoni e Jatobá, aos antigos rituais de expiação do mal.
"Eu entendo que, quando acontece uma situação dessas, as pessoas projetam todo o mal que elas não podem ver nelas mesmas naqueles dois. Historicamente, sempre foi assim. Quando as prostitutas eram apedrejadas, quando os assassinos eram castigados em praça pública, o ritual coletivo servia como expiação do que havia de mal em cada indivíduo", explica Palomo.
O pai e a madrasta de Isabella foram indiciados por homicídio doloso (com intenção) triplamente qualificado. Na próxima terça-feira (22), o delegado Calixto Calil Filho deve pedir a prisão preventiva do casal.
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