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Cotidiano
23/04/2008 - 10h01

Relato: A cama está se movendo; será que eu bebi?

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JAIRO MARQUES
coordenador-assistente da Agência Folha

A cama está se movendo. Não, bobagem. É indisposição, tontura. Não, a cama sacolejou, mexeu. Será que eu bebi? Não, a terra tremeu. Bobagem. A terra não treme em São Paulo. E o barulho de xícaras caindo no apartamento de cima? Ainda temeroso de estar tendo uma alucinação, pulei da cama, me vesti e fui espiar a vizinhança. Sim, o prédio havia balançado, e bastante.

A minha inicial divagação noturna ganhou dezenas de solidários. Diversos moradores do edifício onde moro, no Morumbi, também relatavam o susto de ver TV, vaso e cadeira se movimentarem sozinhos.
E dá medo. Claro que dá. É o típico arrepio na espinha. Na vizinhança, pessoas apagavam e acendiam as luzes como querendo dizer: "Aqui também".

Durou uns 15 segundos o primeiro tremor de terra que senti na vida. A gente sente no peito, na cabeça, no sangue, na ponta dos pés. No corpo a impressão é que se passa um calafrio.

Não vou dormir aqui, não, pensei. Não demorou para que meus companheiros de pânico trouxessem informações de outras partes do bairro.

"E eu que moro no 8º? Vocês não sabem o quanto balançou lá", dizia o vizinho com um bebê no colo. Moro no térreo. Que bom.

O segurança, que sentiu o tremor "formigar os pés", não queria mais ficar na guarita. Mas o interfone não parava de tocar.

Logo a aglomeração cresceu. "O prédio não foi feito para agüentar terremoto, ainda mais esses fortes, que vêm do Chile. É reflexo do Chile", dizia alguém. "Ah, mas em Manaus também tem terremoto. Acabou nosso sossego. Não viram no jornal que agora o Brasil tem terremoto?", dizia outro.

Logo uma moradora do 6º andar disparou da sacada para os assustados lá de baixo: "Tremeu tudo, gente. Tremeu no ABC, no estádio [do Morumbi], tremeu a cidade inteira".

Reconfortado por saber que não era o único que teve a sensação estranha de ver a vida bailando de modo involuntário, voltei para o apartamento. Outros fizeram o mesmo. "Boa noite, gente. Qualquer coisa, grita", falou um deles.

 

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