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Cotidiano
04/05/2008 - 09h41

Cemitério japonês no interior de SP é único da América Latina

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JULIANA COISSI
enviada especial da Folha de S.Paulo a Álvares Machado

O aposentado Mário Ogassawara, 77, é guardião de um bem importante na pequena cidade de Álvares Machado, no oeste paulista (a 578 km da capital). Filho de pioneiros japoneses que chegaram à cidade para "fazer a vida" em 1918, Ogassawara é o responsável pelas chaves do primeiro e único cemitério apenas de japoneses da América Latina --título confirmado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo-, que foi tombado como patrimônio histórico nos anos 80.

Na década de 20, Álvares Machado, que tinha a maior parte da sua área ocupada por mata virgem, foi atingida por uma epidemia de febre amarela que matou muitos pessoas, incluindo os recém-chegados japoneses. Kussushigue e Kazumassa, tio e avô de Ogassawara, foram das primeiras vítimas.

Por decisão dos parentes, os dois foram sepultados em um sítio da família, já que o cemitério mais perto ficava em Presidente Prudente, uma distância de 15 km que era percorrida a pé. O pai da aposentada Emília Matsumoto, 69, então um rapaz de 18 anos, era um dos escalados para carregar os caixões.

"Uma vez, ele mal chegou de volta e já tinha outro morto por causa da epidemia. No total, foram cinco corpos seguidos que tiveram que levar", conta ela.

Depois de optar por enterrar no próprio sítio os dois parentes, a família Ogassawara passou a ser procurada por outros imigrantes de luto. Decidiram, então, em 1920, doar cinco alqueires do sítio para construir o cemitério e uma escola.

No "ohaka", cemitério em japonês, de Álvares Machado estão enterradas 784 pessoas, entre japoneses e descendentes diretos. Há uma única exceção, logo justificada: Manoel, um brasileiro, ganhou seu jazigo no espaço japonês porque foi assassinado defendendo uma família japonesa de um jagunço que queria matá-la durante a madrugada para tomar o sítio.

O cemitério passou, então, a receber não só vítimas de febre amarela e de doenças tropicais. Tooru Tachibana, tio-avô da professora de estatística Vilma Tachibana, é um dos que foram enterrados no local. Ele morreu com 20 anos por ferimentos de luta de sumô.

Também estão sepultadas ali muitas crianças que nem sequer atingiram os dez anos: muitas delas sofriam com a alimentação escassa.

Além dos túmulos, os imigrantes construíram no local uma capela para orações de budistas. Como católicos também foram enterrados no cemitério, a colônia permitiu que fossem colocadas uma cruz e imagens de Nossa Senhora e de Jesus.

Boa parte da conversão de japoneses ao catolicismo se deve ao trabalho do monsenhor Nakamura, que, segundo a comunidade, foi o primeiro padre japonês enviado ao Brasil, em 1923. Há um processo no Vaticano que busca a beatificação do religioso.

O "ohaka" funcionou até 1942, quando o então presidente Getúlio Vargas decidiu fechá-lo --durante a Segunda Guerra Mundial, uma série de medidas foi adotada pelo governo contra as comunidades japonesas por pertecerem a uma nação inimiga.

"O povo ficou triste quando fechou. A partir dali, os japoneses passaram a ser enterrados no cemitério municipal de Machado", conta Ogassawara.

Os familiares dos japoneses mortos continuaram, porém, a fazer suas orações no local. Os portões são abertos duas vezes por ano: no Dia de Finados e em julho para uma celebração chamada Shokonsai (convite às almas). O cemitério foi tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de SP).

 

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