Secretário admite participação de PMs em tortura de equipe de "O Dia"
da Folha Online
da Agência Brasil
O secretário estadual de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, confirmou neste domingo, em entrevista coletiva, que há policiais militares entre os milicianos que capturaram e torturaram uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia", no último dia 14 de maio, no Rio. Ele afirmou que os suspeitos foram identificados, mas que não serão divulgados detalhes sobre as investigações.
"Não adianta prender e depois de dois ou três dias eles estarem soltos. É preciso formar provas para condená-los porque, dessa forma, eles podem ser extirpados da corporação."
O secretário disse que a investigação é importante porque é difícil provar o envolvimento de um policial com uma milícia como a que opera na favela do Batan, onde o crime aconteceu."É uma situação fácil de ser identificada, mas difícil de ser provada. Muitas vezes, chegamos nas comunidades e encontramos um policial a paisana [que estaria envolvido com a milícia], mas, ao ser questionado, ele diz que está apenas a passeio ou que tem parentes no local."
Beltrame afirmou ainda que quando assumiu o cargo, em 2007, havia 122 milícias no Rio e que, atualmente, são "bem menos de 100". Ele descartou a possibilidade de pedir apoio para a Força Nacional de Segurança.
Crime
Conforme "O Dia", a repórter e o fotógrafo moravam na favela do Batan (zona oeste do Rio) havia 14 dias com o objetivo de fazer uma reportagem sobre o funcionamento da milícia no local. Na noite do crime, o fotógrafo e o motorista aceitaram um convite dos moradores para beber uma cerveja. No local, os dois foram rendidos por dez homens armados encapuzados. Eles foram algemados diante dos moradores e levados para a casa alugada --onde a repórter também foi rendida.
Segundo a reportagem, os milicianos demonstraram em diversas ocasiões que eram PMs.
Os profissionais e um morador --que, para os milicianos, conhecia a identidade dos três-- foram levados a um cativeiro e torturados. "Como nos porões das ditaduras mais sombrias, choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos passaram a ser aplicados até o limite do desfalecimento. Para acordar as vítimas, socos e pontapés. Para deixar o grupo ainda mais apavorado, eles foram levados para quartos separados", afirma o jornal.
Os profissionais foram capturados por volta das 21h e liberados por volta das 4h.
Repercussão
Neste domingo, em nota oficial, o governador do Rio, Sérgio Cabral, classificou o crime de "absolutamente intolerável". Ele disse defender a liberdade de expressão com a atuação da imprensa, que "precisa --e deve-- fazer o seu trabalho". De acordo com a nota, Cabral, que é jornalista e filho de jornalista, determinou que as investigações sejam "rigorosas e tragam respostas o mais rapidamente possível".
Também em nota, o presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto, afirmou que o caso "é um escândalo intolerável" e acusou o Estado de, por meio da omissão, estimular a formação de grupos paramilitares. Britto disse ainda que "é urgente e inadiável uma reforma estrutural no aparelho de segurança pública do Rio de Janeiro".
O Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro também fez críticas ao governo do Rio. O sindicato afirmou ser "inaceitável" que o governo não consiga impedir a ação criminosa "de seus próprios agentes, integrantes de máfias milicianas, que disputam com o tráfico de drogas o domínio das comunidades carentes".
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