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Cotidiano
11/06/2008 - 21h02

Especialistas apontam riscos em fuga na adolescência; garotas de SP aparecem em SC

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CAROLINA FARIAS
da Folha Online

Na adolescência, o desejo de fugir é saudável, mas a fuga não. O fugitivo pode se envolver em situações de perigo, dizem especialistas ouvidos pela Folha Online.

As adolescentes Giovanna Maresti Sant'Anna Silva,15, e a amiga Ana Lívia Destefani Luciano, 16, sumiram na última quinta-feira (5) em São Paulo. Foram vistas pela última vez em uma sessão de cinema no Espaço Unibanco, na rua Augusta (região central). A Polícia Civil disse acreditar em uma fuga. A última pessoa a ter contato com a dupla disse que o desejo das garotas era ir para a Argentina. Ambas foram encontradas na noite desta quarta-feira em Curitibanos (SC).

"Querer independência é uma coisa normal. A independência, o afastamento dos pais, do corpo da infância, são tendências e necessidades naturais e saudáveis na adolescência. O problema é quando isso começa a trazer riscos. Então o que é saudável, necessário, acaba se tornando patológico. Não é uma atitude sadia a fuga de casa. O desejo é sadio, mas é preciso ter preparo para isso", afirmou Leila Cury Tardivo professora doutora do Departamento de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Prever a fuga dos filhos é difícil, mas os pais devem estar atentos ao comportamento dos adolescentes dentro de casa e também com as companhias, segundo a psicóloga.

"É muito importante estar atento ao grupo em que ele anda, quem são essas pessoas. Os amigos nesse momento [adolescência] influenciam profundamente", disse Tardivo.

Para a psicóloga e psicanalista Claudia Figaro Garcia, mentir sobre o destino de uma viagem ou um passeio também pode ser tão grave quanto uma fuga. Ela lembrou do caso de Liana Friedenbach e Felipe Caffé, casal de namorados assassinados em novembro de 2003, após serem rendidos enquanto acampavam em Embu-Guaçu. Ambos mentiram sobre a viagem para os pais --Liana havia dito que iria para Ilhabela (litoral de São Paulo), com um grupo de jovens da comunidade israelita. Garcia é coordenadora do eixo de psicologia do projeto Caminho de Volta, uma parceria da Faculdade de Medicina da USP com a Secretaria da Segurança Pública para auxiliar famílias de crianças e adolescentes desaparecidos.

"O adolescente acaba não tendo muita noção que o que vai encontrar não é aquele plano maravilhoso de que tudo vai dar certo, que ele vai se aventurar, conhecer lugares maravilhosos e pessoas incríveis. Pode até ser que seja uma aventura legal, mas ele não conta com os riscos. É isso que conversamos com o adolescente quando ele volta. Por que ir sem avisar?", diz a psicóloga do projeto, que também trabalha com os adolescentes que voltam para a casa ou são localizados.

Em 2007, o projeto publicou um livro que traz estatísticas sobre a situação das crianças e adolescentes que desaparecem de casa --por fuga, rapto, seqüestro entre outras ocorrências.

Foram entrevistadas famílias de 302 menores desaparecidos --73% deles eram de fugas de casa. Destes, 180 voltaram para casa ou foram localizados e, 89 destes voltaram para uma entrevista no projeto. A maioria deles já fugiu ao menos uma vez de casa.

Os números do projeto mostra que, na adolescência, as meninas fogem mais que os meninos. Entre as 177 meninas pesquisadas, 49% fugiu entre 13 e 15 anos, contra 36% dos 125 meninos na mesma idade. Dos 27 meninos entre 16 e 18 anos, 22% fugiram, contra 30% das 53 meninas na mesma faixa etária.

"Estamos tentando investigar o que acontece com as meninas", disse Garcia.

Caminho de Volta

O projeto Caminho de Volta foi criado 2004 e tem um banco de dados de 600 famílias de desaparecidos com até 18 anos.

O volume ainda representa muito pouco perto de cerca de 8.000 crianças e adolescentes que desaparecem em média no Estado por mês, segundo dados do projeto. Nem sempre as famílias procuram a polícia para relatar o desaparecimento e pouquíssimos são cadastrados no projeto.

O projeto funciona da seguinte forma: a família registra o boletim de ocorrência e deve ser orientada a procurar o projeto. Na cidade de São Paulo, um psicólogo do projeto fica disponível na 2º Delegacia de Pessoas Desaparecidas do DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa) para dar orientações.

Aqueles que aceitam participar têm uma amostra de DNA coletada --com uma gota de sangue--, podem ser os pais ou qualquer outro membro da família. O DNA é armazenado em um banco de dados.

As informações do DNA são usadas quando há casos de localização de pessoas acidentadas, cadáveres ou restos mortais. Quando um corpo é localizado --de alguém de até 18 anos-- sem identificação. O IC (Instituto de Criminalística) envia os dados do DNA para o projeto verificar se consta informações dessa pessoa em seu cadastro.

Em casos de bebês e crianças que não conseguem dizer quem são e onde estão seus pais, o a criança é encaminhada para o laboratório, na USP, também tem o DNA coletado e os dados são conferidos no banco de informações do projeto. O mesmo ocorre para desaparecidos de anos.

"Às vezes, um bebê desaparece e, quando cresce, não pode mais ser reconhecido. Com isso banco de dados de DNA consegue ajudar na identificação", afirmou Garcia.

Além do DNA, as famílias são submetidas a um questionário, onde são perguntados sobre todo o histórico sobre o desaparecido como idade, escolaridade, envolvimento com drogas ou atos infracionais entre outras informações.

"O DNA é super importante. Mas outra questão é saber por que essa criança ou adolescente desapareceu", disse a coordenadora do projeto.

Garcia orienta que, em caso de desaparecimento, a primeira coisa que a família deve fazer é procurar uma delegacia e registrar um boletim de ocorrência.

Em dezembro de 2005, o presidente Lula sancionou a lei 11.259, que altera o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) determinando a investigação imediata de casos de desaparecimento de crianças e adolescentes, assim que comunicado à polícia.

 

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