Moradores param obras e exigem saída do Exército de favela no Rio
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
CAROLINA FARIAS
da Folha Online
Moradores do morro da Providência, região central do Rio, paralisaram nesta segunda-feira as obras do projeto Cimento Social, de reforma de fachadas e telhados das residências da favela. As obras são realizadas em esquema de mutirão pelos moradores, que se recusam a prosseguir com os trabalhos enquanto o Exército continuar a ocupação a favela.
Militares são suspeitos de entregar três jovens da favela a traficantes do morro da Mineira, controlado pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), que é rival do CV (Comando Vermelho), que controla o morro da Providência. Os rapazes foram mortos e seus corpos apareceram domingo (15) em um aterro em Duque de Caxias (Baixada Fluminense).
Os moradores do morro também acusam os militares de agirem com violência e de impor o toque de recolher na área. O Exército nega as acusações.
Um dos responsáveis pelas obras na Providência, o morador Alex de Oliveira afirmou que mesmo os moradores beneficiados pelo projeto concordam com a paralisação das obras em protesto pela presença do Exército.
"Só vamos cobrir alguns telhados que estavam abertos. Fora isso, a obras já estão paradas. Se o Exército disse que vai continuar, eles vão continuar sozinhos, porque nós não vamos trabalhar", afirmou.
O Ministério das Cidades repassou R$ 1,9 milhão ao Ministério da Defesa para a realização das obras, que consiste na elaboração do projeto básico; execução e fiscalização das obras; revitalização das fachadas e telhados; além da segurança das áreas das obras. O Exército é o executor do projeto.
No entanto, os moradores que participam do mutirão reclamam que os militares não colaboram nas obras. "Eles [militares] não coordenam nada. Não carregam uma telha, um saco de cimento. Não fazem nada", afirmou Oliveira.
Segundo ele, as obras começaram há seis meses e 50 das 682 casas que serão beneficiadas já estão prontas. O objetivo do projeto prevê a aplicação de argamassa e pintura externas para proteção das construções da estrutura das casas, que geralmente ficam expostas sujeitas à ação do tempo, que desgasta a alvenaria.
Mortes
David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17, haviam desaparecido no sábado, após serem abordados por militares em uma praça do morro da Providência e levados para um quartel do Exército. Os jovens foram encontrados mortos no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias (na Baixada Fluminense).
Segundo a polícia, os rapazes foram entregues por militares para traficantes do morro da Mineira. As investigações preliminares apontaram que os jovens sofreram agressões e foram assassinados pelos traficantes antes de serem despejados no aterro.
A Justiça determinou a prisão, por dez dias, dos 11 militares suspeitos --um oficial, quatro sargentos e seis soldados. Eles foram presos na manhã desta segunda e levados para o 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca (zona norte).
Nesta segunda, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), chamou de "marginais" os militares do suspeitos de participação nas mortes.
"A Polícia Civil atuou com firmeza no caso desses 11 'marginais' que não honraram a farda do Exército Brasileiro. Eles estão apenas travestidos com a farda, portanto devem ser tratados como criminosos", afirmou Cabral em Berlim, na Alemanha, onde está em missão oficial em busca de novos negócios para o Estado do Rio.
Exército
Em nota, o CML (Comando Militar do Leste) disse nesta segunda-feira que repudia o ato de que 11 militares são suspeitos. "O Exército repudia, veementemente, qualquer desvio de conduta e qualquer ação fora da legalidade praticada por seus integrantes", diz a nota.
No fim de semana, o CML informou que foi instaurado um inquérito policial militar para apurar o desaparecimento e morte dos três jovens.
Também nesta segunda, o Exército negou que tenha feito uso de violência e que tenha implantado toque de recolher no morro da Providência, conforme relataram moradores. Segundo a denúncia, os militares que ocupam a favela desde dezembro do ano passado agem com violência e truculência contra a população local.
O Exército também afirmou que continuará a ocupação na favela até, ao menos, dezembro deste ano, prazo inicial para o fim das obras no local.
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