Jobim pede a militares tolerância com população do morro da Providência
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, discursou nesta terça-feira aos militares que atuam no morro da Providência, região central do Rio, e pediu tolerância. Jobim quer compreensão por parte dos militares que atuam no morro, principalmente diante das possíveis manifestações de revolta dos moradores. Onze militares foram presos sob suspeita na participação da morte de três jovens da comunidade.
Após realizar uma visita de ao menos 25 minutos pelo morro --acompanhado de 40 soldados e dez seguranças--, Jobim voltou a um quartel do Comando Militar do Leste, ao lado da Providência. Cerca de 250 militares foram reunidos para ouvir o pronunciamento do ministro. Ao menos 200 militares atuam no morro para acompanhar a execução do projeto Cimento Social, além de fazer a segurança das obras. Depois de discursar para o batalhão, Jobim voltou ao morro.
"Tenho absoluta confiança de que os senhores não se farão contaminar pelos fatos que ocorreram nos últimos dias. O que os colegas dos senhores fizeram será julgado e punido pela Justiça", afirmou Jobim no discurso.
Durante o discurso o ministro afirmou não haver mais dúvidas sobre o caso. "Não houve falta de comando. O que houve foi desvio de conduta e isso não vai mais se repetir", disse o ministro.
Jobim disse que as obras continuam, mas não quis falar se a ocupação do Exército no morro continua. Os moradores do morro, que realizam o projeto em mutirão, paralisaram as obras desde ontem (16), em protesto pela presença dos militares na comunidade.
Além da participação na morte dos rapazes, os militares que ocupam o morro são acusados pelos moradores de agirem com violência e de impor o toque de recolher.
Hoje pela manhã, o comandante do Exército, Enzo Peri e o chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Leste, general Mário Matheus de Paula Madureira, se reuniram com as famílias dos jovens mortos e pediram desculpas às mães dos rapazes.
Café amargo
Escoltado por cerca de 40 soldados e dez seguranças Jobim andou por vielas do morro da Providência e entrou em lajes das construções do projeto Cimento Social.
O ministro também visitou a casa da dona-de-casa Sueli Ribeiro, 58, tia de Wellington Gonzaga Costa, 19, um dos rapazes mortos, onde tomou um café --sem açúcar.
"Disse para ele dos abusos do Exército aqui dentro e ele disse que para a gente ficar tranqüilo, que já estavam tomando providências", disse ela. "Ele tomou café sem açúcar, café de pobre".
No fim da visita, Jobim se reuniu na associação de moradores, com líderes comunitários e familiares dos mortos. A reunião foi fechada para a imprensa.
Wellington, David Wilson Florêncio da Silva, 24, e Marcos Paulo da Silva, 17, foram entregues pelos militares aos traficantes do morro da Mineira, controlada pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival do CV (Comando Vermelho), que controla o morro da Providência. Os três rapazes entregues aos traficantes foram mortos e seus corpos jogados em um aterro sanitário.
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