Jobim pede desculpas às mães dos mortos, mas não garante retirada de Exército
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Em discurso a moradores do morro da Providência (centro do Rio) nesta terça-feira, na quadra onde os três jovens foram detidos pelos militares que os entregaram a traficantes do morro da Mineira, o ministro Nelson Jobim (Defesa) pediu desculpas às mães dos rapazes. Após visitar as obras do projeto Cimento Social e falar para os militares no quartel do Exército, Jobim retornou à comunidade no início da noite.
Na quadra Américo Brum, no alto do morro, Jobim pediu também que os moradores confiem nos militares que ocupam a comunidade e na autoridade do general Mauro Cesar Cid, comandante da equipe do Exército que faz a segurança das obras do projeto.
"Vamos arranjar uma forma de convivência possível [entre os militares e os moradores]", afirmou o ministro, após ouvir crianças do morro cantarem o hino nacional brasileiro. Ao fim do discurso, o ministro saiu aos gritos de "fora Exército", mas não garantiu a saída das tropas.
| Ricardo Moraes/AP |
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| Ministro Nelson Jobim abraça mãe de um dos três jovens mortos no Rio. Militares são acusados de entregar rapazes a traficantes |
Os moradores do morro fizeram nesta terça-feira um abaixo-assinado pedindo a retirada dos militares e, segundo a associação de moradores, já havia reunido cerca de 500 assinaturas até o fim da tarde. "O Exército não tem mais poder na comunidade, eles têm que tirar o Exército", disse o morador Nelson Gomes, 34.
Antes de discursar para os moradores, Jobim falou a 250 militares no quartel do Exército do centro da cidade, onde ficam os homens que atuam na segurança da comunidade. Pediu a eles "tolerância, solidariedade e compreensão" nos próximos dias, quando, segundo ele, os militares devem ouvir expressões "de ódio, de raiva" dos moradores do morro.
"Há uma manifestação que vai atingir vocês, e vocês precisam entender que essas pessoas estão extravasando seu ódio, sua raiva, sua angústia. Mas são provocações que não podem ensejar nenhum tipo de reação. Há que ter tolerância e compreensão", discursou Jobim. "Mas tenho confiança de que vocês vão honrar a farda do Exército", disse o ministro.
Mais cedo, após participar de reunião na associação de moradores, Jobim disse que o crime cometido pelos militares "não pode contaminar o que está acontecendo na comunidade, que são as obras". "Não podemos confundir os fatos. Uma coisa foi o crime que repudiamos, outra são as obras".
Crime
Onze militares estão presos desde ontem (16) acusados de participarem da morte de três jovens do morro da Providência.
David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17, foram entregues pelos militares aos traficantes do morro da Mineira, controlado pela facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival do CV (Comando Vermelho), que controla o morro da Providência.
Os corpos dos rapazes foram encontrados no dia seguinte, no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias (Grande Rio).
O Exército deteve o grupo devido a um suposto desacato. Os três foram levados a um oficial, que determinou a liberação deles. Segundo a Polícia Civil, o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, não ficou satisfeito e resolveu entregá-los aos traficantes do morro da Mineira.
Investigação
Jobim, assim como o comandante do Exército, Enzo Peri, estão no Rio para acompanhar de perto as investigações sobre a ação dos militares.
Hoje pela manhã, Peri e o chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Leste, general Mário Matheus de Paula Madureira, também pediram desculpas às mães dos rapazes.
O Exército ocupa o morro da Providência para acompanhar a execução do projeto Cimento Social, que é de sua responsabilidade. As obras são realizadas em esquema de mutirão pelos moradores da favela e são monitoradas pelo Exército, responsável também pela segurança do projeto.
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