Câmara investiga documento que mandaria Exército agir como polícia na Providência
LUISA BELCHIOR
colaboração para a Folha Online
Uma comissão externa será criada pela Câmara para apurar o caso dos três moradores do morro da Providência (região central do Rio), mortos após serem entregues por militares a traficantes rivais. Os deputados vão apurar denúncias dos moradores de que o Exército instrui, por meio de comunicado interno e confidencial, os militares que ocupam o morro a atuar com poder de polícia, com ações como o uso de armamentos, revistas e abordagem de moradores.
A determinação, segundo o presidente da Comissão de Segurança Pública, Raul Jungmann (PPS-PE), teria partido de uma circular do comando do Exército em Brasília para o CML (Comando Militar do Leste). "Se for comprovado, será punido quem mandou fazer isso [o documento]. Essa denúncia vai para dentro do relatório que a comissão externa vai fazer em 15 dias. Não quero julgar, mas o Exército não tem hoje o poder de polícia."
A aposentada Ísis Almeida, 64, avó de David Wilson Florêncio da Silva, um dos três jovens mortos, contou que militares faziam papel de policiais desde que entraram na favela, em dezembro do ano passado, abordando e revistando moradores. "Eles estão fazendo papel de polícia aqui na praça [Américo Brum, onde os jovens foram abordados]. E aqui não tem nenhum canteiro de obras para eles fazerem a segurança", disse.
Na manhã desta quarta-feira, Jungman foi ao morro da Providência onde se reuniu com familiares dos mortos na praça de onde eles foram levados pelos militares. Na reunião, os moradores pediram que o deputado consiga a saída imediata do Exército da favela. Hoje, cerca de 20 homem do Exército e dois carros da Polícia Militar circulam na praça.
Crime
Os jovens --David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga Costa, 19, e Marcos Paulo da Silva, 17-- foram encontrados mortos no domingo (15) no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias (município da Baixada Fluminense), após manifestação de moradores do morro da Providência, que chegaram a incendiar ônibus no sábado (14) em protesto pelo sumiço dos rapazes.
Segunda-feira (15), três dos 11 militares presos acusados de terem entregue os moradores à traficantes da Mineira confessaram o crime, segundo a polícia. Eles disseram que detiveram os jovens por desacato e os levaram ao quartel, onde um capitão os liberou.
Liderados pelo tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, os militares desobedeceram a ordem e levaram os jovens para o morro da Mineira, controlado pela ADA (Amigos dos Amigos), facção rival do CV (Comando Vermelho), que domina a Providência.
Os militares ocuparam o morro para fazer a segurança de trabalhadores do projeto Cimento Social, que reforma as casas dos trabalhadores. Desde a morte dos moradores, as obras pararam.
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