Capitão sabia que jovens seriam levados para "passeio", diz delegado na Alerj
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online
O capitão do Exército Leandro Ferrari sabia que um de seus subordinados, o tenente Vinícius Ghidetti --apontado pela polícia como o mandante da entrega de três jovens moradores do morro da Providência (centro do Rio) a traficantes do morro da Mineira--, iria "dar uma volta com os rapazes" antes de liberá-los.
A declaração foi dada pelo delegado Ricardo Dominguez, titular da 4ª Delegacia de Polícia (Central), a deputados estaduais integrantes da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (Assembléia Legislativa do Rio), nesta terça-feira.
Dominguez presidiu o inquérito concluído pela Polícia Civil na última quinta-feira (19). O inquérito solicitou a prisão dos 11 militares e os indiciou por triplo homicídio com três agravantes --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas. O inquérito foi entregue ao Ministério Público, que denunciou os suspeitos à Justiça Estadual mas pediu que o caso fosse julgado pela Justiça Federal.
O delegado disse hoje que o capitão Ferrari relatou em depoimentos ter alertado o tenente Ghidetti para que não fizesse aquilo, entretanto, não tomou nenhuma outra atitude além de avisá-lo verbalmente. Devido a isso, Dominguez informou que o capitão Ferrari pode ter cometido prevaricação (não agir como exigido na função pública).
"O capitão mandou liberar os jovens. Ele pode ter descumprido [alguma norma] sim pelo fato dele não ter, naquele momento, contido o tenente", disse o delegado.
O capitão não foi indiciado pela Polícia Civil. Para Dominguez ele não teve participação no crime.
O delegado informou ainda na Alerj que o capitão Ferrari disse em depoimento que havia ordenado aos militares que levassem os três jovens detidos para a 4ªDP e não para o quartel do Exército.
O vice-presidente da comissão, o deputado Marcelo Freixo (PSOL), se disse indignado e afirmou que cabe à Força Armada averiguar o fato. "Se isto consta no depoimento é uma conduta inaceitável. É papel do Exército apurar isso [a eventual prevaricação sugerida pelo delegado]", afirmou.
Outro lado
A reportagem não conseguiu localizar o capitão Ferrari para comentar o assunto.
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