Moradores de morro recebem doações de R$ 75 mil para continuar obras
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Moradores do morro da Providência, no centro do Rio, já conseguiram doações de R$ 75 mil para custear, sem verbas do governo, a continuação das obras do projeto Cimento Social. As verbas foram disponibilizadas nesta quarta-feira por seis empresários a um fundo criado pela Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio, segundo a prefeitura.
Os recursos, porém, só poderão ser aplicados na obra com autorização do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), que ontem (24) embargou as obras alegando caráter eleitoral no projeto, elaborado pelo senador Marcelo Crivella (PRB), pré-candidato à prefeitura do Rio.
O TRE informou que recebeu pedido dos moradores para que as obras sejam concluídas. Em nota, o órgão disse que o pedido será analisado pelo juiz Fábio Uchôa, autor da decisão de embargar as obras.
Como este é ano eleitoral, prefeitura e governo estadual do Rio não podem, por lei, encampar as obras com maquinário e verbas próprias. A Secretaria Municipal de Assistência Social alegou, contudo, estar apenas mediando doações para que os próprios moradores continuem as obras.
Para concluir os trabalhos nas 16 casas que, segundo o responsável pelas obras Alex de Oliveira, estão sem telhado ou partes dele, será preciso R$ 150 mil, informou a secretaria. Até o fim da tarde de hoje, o órgão afirmou já ter angariado R$ 75 mil.
A prefeitura disse ter oferecido hospedagem em hotéis para os moradores das 16 casas mas informou que, até o fim desta tarde, ninguém havia pedido o auxílio.
O governo estadual também anunciou hoje a intenção de encampar as obras. "A gente assumiria as obras sem nenhum problema", declarou, hoje pela manhã, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).
De acordo com a assessoria de imprensa do governo do Rio, Cabral vai levar a idéia ao ministro Márcio Fortes (Cidades).
Crise
No último dia 14, três jovens do morro da Providência foram entregues a traficantes do morro do Mineira --rivais aos da Providência-- por um grupo de militares do Exército que ocupava a comunidade para fazer a segurança das obras. O projeto é um convênio entre os ministérios das Cidades e da Defesa a partir de uma emenda apresentada por Crivella.
Os jovens haviam sido detidos no alto do morro pelos militares e levados ao quartel próximo à Providência. O capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem libertados, mas o tenente Vinícius Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário.
Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime. O caso abriu uma crise na presença do Exército na comunidade. Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas e com prazo até esta quinta-feira (26). Ontem (24), porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos. Os 11 militares foram indiciados por triplo homicídio com três agravantes --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas-- e tiveram a prisão preventiva decretada ontem.
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