Operários retomam obras no morro da Providência, no Rio
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Com autorização da Justiça, os 150 operários contratados para o projeto Cimento Social no morro da Providência (centro do Rio), retomaram as obras nesta quinta-feira em regime de mutirão.
Na quarta-feira (25), a Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio criou um fundo para custear, sem verbas do governo, a continuação das obras. Até a noite de ontem, seis empresários já haviam doado ao menos R$ 75 mil para o fundo, segundo a prefeitura da cidade.
Embora ainda apreensivos, os moradores se mostraram mais animados com o retorno das obras. "Ainda não é o ideal, porque não sabemos se teremos tempo para fazer todas as obras. Mas já adiantou muito, pois estamos agora com mais esperança de manter este emprego", disse o encarregado pelas obras, Alex de Oliveira.
Na manhã de hoje, os funcionários fizeram limpeza das ruas, que estavam com lama, e retiraram o entulho das casas que são atendidas pelo projeto. A que concentrava o maior número de funcionários --cerca de 15-- era a do aposentado Alberico Ferreira, 67. O imóvel dele foi posto abaixo na terça-feira (24), horas antes de a Justiça determinar a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral do projeto.
"Sabia que tudo ia dar certo, mas mesmo assim a gente ficou apreensivo. Mas hoje, quando acordei, ouvi o barulho dos operários e já fiquei esperando na porta", disse o aposentado.
Também nesta manhã, os operários apagaram, por determinação da PM (Polícia Militar), pichações com a sigla CV (Comando Vermelho) --a facção criminosa que tem o controle do tráfico de drogas no morro da Providência.
Muros de algumas das casas atendidas pelo projeto tiveram ontem as siglas pichadas. Na manhã de hoje, policiais militares circulavam pelo morro, mas não houve conflitos até o meio-dia.
Crise
No último dia 14, três jovens do morro da Providência foram entregues a traficantes do morro do Mineira --rivais aos da Providência-- por um grupo de militares do Exército que ocupava a comunidade para fazer a segurança das obras. O projeto é fruto de um convênio entre os ministérios das Cidades e da Defesa a partir de uma emenda apresentada por Crivella.
Os jovens haviam sido detidos no alto do morro pelos militares e levados ao quartel próximo à Providência. O capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem libertados, mas o tenente Vinícius Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário.
Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime. O caso abriu uma crise na presença do Exército na comunidade. Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. Na terça-feira (24), porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos. Os 11 militares foram indiciados por triplo homicídio com três agravantes --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas-- e tiveram a prisão preventiva decretada.
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