Tenente que entregou jovens a traficantes se contradiz, diz Promotoria
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
O tenente Vinícius Ghidetti, que, segundo a polícia, liderou a entrega de três jovens do morro da Providência (centro do Rio) a traficantes do morro da Mineira, deu depoimento "surreal" e "altamente contraditório" durante acareações que participou nesta sexta-feira, de acordo com a promotora de Justiça Militar Hevelize Covas. O órgão estuda fazer a reconstituição das mortes no morro da Mineira.
Ghidetti participou nesta sexta-feira de duas acareações sobre o caso no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca (zona norte), onde está preso com outros 10 militares acusados de terem entregado os três jovens aos traficantes do morro da Mineira, rivais aos do morro da Providência.
Hoje pela manhã, ele ficou frente a frente com o capitão Leandro Ferrari, que deu ordens a Ghidetti de liberar os rapazes. Alegou saber que teria de soltá-los no momento que lhe foi ordenado. Já Ferrari afirmou ter feito a determinação quando o grupo estava ainda o morro da Providência, onde os militares detiveram os jovens por desacato, segundo a promotora.
"Ele [Ghidetti] cada hora falava uma coisa. Foi altamente contraditório, deu uma versão surreal. Cada vez ele está se complicando mais, tanto no âmbito da Justiça Militar quando na da Justiça comum, a ponto de subestimar a inteligência de qualquer um", disse a promotora.
Durante a tarde, Ghidetti participou da segunda acareação, desta vez ao lado do soldado Fabiano Eloi dos Santos, um dos militares suspeitos. Santos, segundo a promotora, é suspeito de ter detido um dos três jovens que tentou fugir ao ser entregue aos traficantes.
"Uma hora ele [Ghidetti] dizia que foi o soldado Fabiano que pegou o rapaz que tentou se evadir, mas daqui a um minuto ele negava, dizia que não tem certeza. Foi um depoimento bastante ruim para ele", afirmou Covas.
Na segunda-feira (30), a Justiça Militar vai ouvir uma testemunha, que estava com os rapazes no momento em que eles foram detidos pelos militares, no alto do morro, mas conseguiu fugir, segundo o Ministério Público Militar.
Crise
Os jovens foram detidos pelos militares no alto do morro da Providência por desacato no último dia 14 e entregues a traficantes do morro da Mineira (centro do Rio), ligados à facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival ao CV (Comando Vermelho), que controla o tráfico na Providência. O Exército foi incumbido de ocupar o morro em dezembro de 2007 para fazer a segurança do projeto Cimento Social, mas saiu esta semana por ordem da Justiça, depois de uma crise aberta após a morte dos jovens e o embargo das obras.
Os militares levaram os jovens para o quartel do Exército próximo à Providência, mas o capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem liberados. No entanto, o tenente Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário. Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime.
O caso abriu uma crise sobre a presença do Exército na comunidade. Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. Na terça-feira (24), porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos. Os 11 militares foram indiciados por triplo homicídio com três agravantes --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas-- e tiveram a prisão preventiva decretada.
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