Cotidiano
29/06/2008 - 09h12

Lei seca divide opinião de boêmios de São Paulo

PAULO SAMPAIO
da Folha de S.Paulo

O industrial Celso Forni, 61, sete garrafas de Red Label por mês, considera a lei seca instituída há pouco mais de uma semana em todo o Brasil "corretíssima". Sentado no balcão do bar Azucar, no Itaim, onde chega a beber dez doses por noite, cinco vezes por semana, Forni diz que considera muito justa a aplicação de uma multa de R$ 955, mais a perda do direito de dirigir por um ano e a retenção do veículo a quem for pego ao volante depois de tomar o equivalente a um chope.

"A lei deveria ser mais rígida ainda. Não dá mais pra ver tanta gente sofrendo com perda de filho. Quero ser um exemplo para todo mundo."

Pouco depois da preleção, o industrial assume o volante de seu Peugeot e ruma para casa, em City América, a cerca de 15 quilômetros dali.

"Bebo há 40 anos e nunca sofri um acidente. Vou pra casa a 60 km por hora e, além disso, não existem carros com famílias a essa hora na rua", diz.

Em uma ronda na quinta-feira passada por bares da Vila Madalena, Higienópolis, Itaim, Jardins e Vila Olímpia, a Folha observou que a maior parte dos entrevistados que dirigem depois de beber aplaude a fiscalização e a punição rigorosa, mas não pretende mudar.

De um lado estão os que, como Forni, consideram a lei "corretíssima", mas só para os outros. Os argumentos podem ser incríveis. "A quantidade aceitável de álcool no organismo depende muito de pessoa para pessoa; eu tenho 1,90 m de altura, peso 100 kg. Quanto eu posso agüentar de chope? Provavelmente mais do que um cara de 1,70 m", raciocina o bancário Virgílio (ele não quis dar o sobrenome porque tem dois filhos), 25, "mais de oito chopes".

Na mesma linha, o consultor Adriano Rodrigues, 31, contabiliza: "Eu costumo trabalhar 32 horas seguidas e, depois, vou pra casa dirigindo. Pergunto: isso é menos perigoso do que dirigir depois de, sei lá, quatro garrafas de cerveja?"

Chope, cachaça e vinho

Do outro lado do debate está o time dos articulados, que acha a aplicação da lei seca improvável, tem idéias plausíveis para justificar sua inviabilidade e, já que é assim, pode beber e dirigir sem culpa.

"Seria preciso redimensionar o lazer noturno, oferecer transporte público decente pro bêbado e contar com a pré-disposição da população", diz um dos quatro motoristas alcoolizados de uma mesa de dez pessoas com idades entre 30 e 50 anos do bar Jacaré, na Vila Madalena. Ele bebeu oito copos de cerveja, três de vinho, dois de cachaça ("mas eu moro a menos de 2 km daqui"). O debate ali cresce, mas ninguém quer dar o nome. "O máximo que essa lei pode promover é um aumento de corrupção", diz um. "Assim que o bafômetro detectar o filho de um desembargador, a lei é revogada", aposta outro.

No Spot, próximo à Paulista, o médico Fernando Torres, 38, duas taças de vinho, derruba a lei com um peteleco ilustrativo. "Você enche a cara, sai de carro, bate em outro, mata uma criança e se machuca. No hospital, para fazer um exame de dosagem de álcool em você, eu preciso da sua autorização. Entendeu? Não é fácil controlar."

Entre a turma de Forni e a dos incrédulos existe um contingente de inconformados.

A analista judiciária Eliane Ferraz, 39, três uísques, saca da bolsa a lei e diz: "Isso é inconstitucional, cabe recurso. Então agora você sai para um jantar romântico e não pode beber duas taças de vinho? Se me multarem, vou recorrer!"

Se as duas taças de vinho excederem seis decigramas por litro (o equivalente a dois chopes), Eliane vai presa. Seis meses a três anos afiançáveis (de R$ 300 a R$ 1.200).

"A gente vive em uma sociedade de risco: você quer beber, ter um carro que ande a 300 km/h, tomar ecstasy. Criminalizar é muito drástico, não funciona. Só vai banalizar", diz alguém na mesa do Jacaré.

Perto dali, um autêntico representante da espécie "zuzo bem" questiona: "O bafômetro pega ecstasy?"

Comentários dos leitores
Daniel Braga Rodrigues (9) 21/08/2008 15h12
Daniel Braga Rodrigues (9) 21/08/2008 15h12
Sr. Citrã Prandi,
Lí seus comentários e já que você quer falar de FATOS, vamos à eles: dos 40 comentários que o sr já fez, 100% deles foram contra à Lei Seca. Ok, vivemos numa democracia e você tem todo o direito de não concordar com a Lei. Mas é o seguinte, você defende um conjunto de FATOS, totalmente absurdos, como dirigir depois de beber... você pode continuar a encher a cara, morrer de cirrose, o que for, o que não pode é pegar o carro e dirigir depois.... pronto, simples assim... não sei porque tanta indignação...é só não dirigir, vai de busão pra casa, arruma uma namorada pra te levar, vende seu carro e vai ESPECULAR na bolsa... eu não sou especulador, apenas defendo o que é certo... se beber não dirija...
sem opinião
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Mario sergio Citrã Prandi (40) 21/08/2008 11h33
Mario sergio Citrã Prandi (40) 21/08/2008 11h33
Não adianta especular sT. Daniel Braga estou falando de FATOS, não de uma opinião minha, essa lei é uma CANOA FURADA para o Brasil, não são suas ideias radicais ainda não são argumentos. Agora se você não consegue beber uma dose sem ficar RUIM ou NÃO É MAIS RESPONSAVEL PELOS SEUS ATOS, não deveria nem beber quanto mais dirigir, você é um perigo proximo do alcool, mas não diga que as pessoas são iguais a você e vão sair se matando, o nome disso é especulação. 1 opinião
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Fernando Barreto (6) 20/08/2008 11h03
Fernando Barreto (6) 20/08/2008 11h03
Se as "autoridades"(?) tivessem competência para fiscalizar a lei(?) anterior, não haveria necessidade de editar essa nova lei(?)(sinônimo de propina) e os números seriam iguais aos de hoje. 2 opiniões
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