Promotora diz em carta que lamenta morte de jovem em Ipanema; leia íntegra
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
A promotora de Justiça do Rio Márcia Velasco, cujo segurança atirou contra o estudante Daniel Duque,18, na saída de uma boate de Ipanema (zona sul do Rio), afirmou nesta terça-feira que está sofrendo pela morte do estudante, mas defendeu a presença de um segurança com seu filho, Pedro Velasco. Esta foi a primeira fez que a promotora se manifestou sobre o caso.
Duque morreu após ser atingido pelo tiro disparado pelo policial militar Marcos Parreira, que fazia a segurança do filho da promotora na saída de uma boate em Ipanema no último dia 28.
Por meio de uma carta, a promotora afirmou ainda que voltou a ser ameaçada pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Velasco é responsável por denúncias à Justiça contra o traficante, que cumpre pena no presídio federal de Campo Grande (MS). Por causa de ameaças de Beira-Mar, o Ministério Público do Rio mantinha o policial militar como segurança da promotora e de sua família há sete anos.
"Este bandido [Beira-Mar] voltou a me ameaçar. No último dia 19 de junho recebi nova comunicação de que ele, mais uma vez, disse que não descansará enquanto não me matar", escreveu a promotora. "Há oito anos dei a minha paz e a do meu filho em defesa de uma cidade melhor, em que todos nós pudéssemos viver em paz e sem medo, não tenho vida, rotina, tranqüilidade e paz de espírito. Há oito anos convivo com o medo, de ligar o carro e vê-lo explodir, de receber a notícia de que meu filho sofreu um atentado".
Na carta, Velasco afirmou ainda que último dia 28 --quando o crime aconteceu-- foi "um dos dias mais tristes da minha vida". "Eu lamento do fundo do coração a morte do jovem Daniel Duque. Lamento profundamente a violência que se repete nesta cidade como uma rotina sufocante. Quero justiça, assim como todos".
Nesta terça-feira, a mãe de Daniel Duque, Daniela Duque, voltou à 14ª Delegacia de Polícia (Leblon), onde o caso é investigado, para levar a roupa que o filho usava quando foi baleado. Ela disse que, pela camisa, é possível ver que a bala que atingiu o estudante entrou pela axila do menino. Um dos seguranças da boate foi ouvido nesta terça-feira e, segundo a polícia, forneceu novos elementos que podem elucidar como foi o início da briga que culminou com a morte.
Amigos de Pedro Velasco contaram em depoimento prestado à 14ª Delegacia de Polícia (Leblon) no sábado que Parreira deu dois tiros para o alto para tentar defendê-los de um grupo de jovens que tentavam agredi-los. O terceiro disparo, que atingiu e matou o estudante, foi feito acidentalmente pelo segurança quando o suposto grupo de agressores tentava tirar a arma do segurança, segundo relato do estudante Bruno Monteiro Leite, amigo de Pedro.
O Ministério Público instaurou ontem (30) procedimento para investigar possíveis "excessos" por parte do policial no caso.
Leia na íntegra a carta da promotora Márcia Velasco:
"Tenho lido e assistido em silêncio angustiante, nos últimos dias, a incontáveis manifestações de revolta e indignação pela morte do jovem Daniel Duque. Manifestações justas, principalmente quando partem da mãe e do padrasto de um menino que teve sua vida roubada pela violência.
No seu lugar, como mãe de um rapaz tão jovem quanto o filho dela, estaria me esforçando para não gritar de dor. O que pode acontecer de pior a uma mãe do que perder um filho na flor da idade?
Mesmo sofrendo como estou, gostaria de dizer que não estou acostumada a ter momentos de fraqueza. Não posso me dar ao direito de tê-los. Tenho enfrentado, ao longo dos últimos anos, desafios que me foram impostos pela minha profissão, em defesa da sociedade, da população. O exercício da Promotoria de Justiça, nos dias de hoje, de maneira séria e honesta, exige de todos nós sacrifícios que só realizamos com muita determinação e coragem.
É uma luta constante contra o crime, em suas mais variadas manifestações. Uma luta que, no meu caso, transformou uma mulher normal, tímida, sonhadora, feliz, um lindo filho pequeno, numa mulher determinada, implacável, em busca da justiça e da paz que todos nós queremos.
Os caminhos desta luta me levaram a confrontar, como todos já sabem, os mais perigosos e cruéis bandidos do Rio de Janeiro e o maior criminoso da história do país, Fernandinho Beira-Mar. Os desafios apareceram, eu os fui enfrentando, um a um, sem jamais recuar e acho que hoje pago o preço muito alto que esta cruzada me cobrou.
Este bandido voltou a me ameaçar. No último dia 19 de junho recebi nova comunicação de que ele, mais uma vez, disse que não descansará enquanto não me matar.
São anos e anos de uma vida sem paz, uma vida de medo, minha e de meu filho, que cresceu sem poder ser como os garotos de sua idade, brincando, feliz. Sempre cercado de seguranças, Pedro cresceu e hoje me orgulho, e o pai dele também, de termos criado um rapaz com valores rígidos, com caráter, decência e honestidade.
Mas Pedro sempre tentou ter uma vida mais próxima da normalidade, com todas as dificuldades que teve por causa de nossa situação. Fico triste ao ver que tantas pessoas o considerem um privilegiado por estar sempre protegido por um segurança. Na verdade Pedro é um prisioneiro, pela nossa condição de marcados para morrer.
Com estas informações, não quero criar justificativas para nada.
Quero dizer que o sábado 28 de junho foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Eu lamento do fundo do coração a morte do jovem Daniel Duque.
Lamento profundamente a violência que se repete nesta cidade como uma rotina sufocante.
Quero justiça, assim como todos. Quero que o policial que disparou a arma, e que nunca, em oito anos, havia usado a sua pistola enquanto prestava segurança para nós, sempre demonstrando autocontrole, seja julgado --e não pré-julgado-- com o direito de defesa que se deve dar a todos.
Direito que até o homem que quer nos matar, a mim e meu filho, está recebendo.
Lamento pela violência que acaba se impondo e se traduzindo em nosso meio social, como que incorporadas de forma banal no meio de nossos jovens. É o que costumo chamar da convivência pacífica com a "cultura da ilegalidade".
Eu sei o que é a angústia de perder o sono esperando o filho voltar da rua. Sei disso porque toda a mãe sabe, como a mãe de Daniel sabia.
Mas sei por um motivo a mais: estamos, meu filho e eu, diretamente ameaçados de morte.
Há oito anos dei a minha paz e a do meu filho em defesa de uma cidade melhor, em que todos nós pudéssemos viver em paz e sem medo.
Há oito anos não tenho vida, rotina, tranqüilidade e paz de espírito.
Há oito anos convivo com o medo.
Medo de ligar o carro e vê-lo explodir.
Medo de ter minha casa invadida por cúmplices do criminoso que ajudei a prender.
Medo de receber a notícia de que meu filho sofreu um atentado.
Filhos não deviam jamais morrer antes dos pais. A morte de um filho contraria a lei natural na qual queremos sempre acreditar. Parece subverter o próprio espírito humano. Não há nada que se diga, portanto, que possa mitigar a dor de Daniela Duque e do seu marido.
Espero apenas que, um dia, eles percebam que toda a história tem mais de um lado. Esta também.
E pretendo fazê-la acreditar que, embora repita, nada que possa dizer neste momento vá atenuar a sua dor de mãe, como Promotora de Justiça, nos dezesseis anos de minha pública carreira, tanto quanto ela tenho apenas um anseio : DE JUSTIÇA. Desejo apenas que a verdade dos fatos venha à tona. E certamente ela virá.
Rio de Janeiro, 01 de julho de 2008.
Márcia Velasco"
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