Assassinos de jovens de morro estão soltos porque "polícia não faz mágica", diz Cabral
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Quase 20 dias após a morte dos três jovens do morro da Providência, entregues a traficantes por militares, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse nesta terça-feira que os assassinos ainda não foram encontrados porque "a polícia não faz mágica".
Em depoimento à polícia, os militares do Exército confessaram ter levado os três rapazes a traficantes do morro da Mineira --rivais dos criminosos do morro da Providência--, que apareceram mortos no dia seguinte. A 4ª Delegacia de Polícia (Central), que investiga o caso, informou que concluirá nos próximos dias inquérito em que aponta nomes de traficantes do morro da Mineira responsáveis pelo assassinato dos jovens.
Apesar de nenhum suspeito ter sido preso até hoje, Cabral afirmou que a orientação que ele deu aos investigadores foi a de "prender esses vagabundos o quanto antes". "Por mim, eles estavam presos já, mas a polícia não faz mágica. Agora, estamos no enlace desses marginais e, se Deus quiser, vamos pegá-los", disse Cabral.
A polícia reluta em fazer operações no morro da Mineira atrás de suspeitos para proteger os moradores daquela favela, afirmou o governador. "Não podemos tomar nenhuma iniciativa de ir à comunidade e causar nenhuma injustiça, porque a maioria dos moradores do morro da Mineira é de gente trabalhadora, séria".
Ontem (30), a Justiça Federal aceitou denúncia contra os 11 militares que, segundo a polícia, participaram da entrega dos jovens aos traficantes da Mineira. Eles foram denunciados pelo Ministério Público Federal por triplo homicídio com três agravantes --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas-- e começarão a prestar depoimentos à Justiça na quinta-feira (3).
Crise
No último dia 14, Wellington Gonzaga Ferreira, 19, David Wilson da Silva, 24, e Marcos Paulo Campos, 17, foram detidos pelos 11 militares no alto do morro da Providência por desacato e entregues a traficantes do morro da Mineira (centro do Rio), ligados à facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival ao CV (Comando Vermelho), que controla o tráfico na Providência.
O Exército começou a ocupar o morro da Providência em dezembro de 2007, mas saiu semana passada por ordem da Justiça, depois da morte dos jovens e de denúncias de que os militares estariam exercendo funções de segurança pública e abusos de poder.
Os militares levaram os jovens para o quartel do Exército próximo à Providência, mas o capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem liberados. No entanto, o tenente Vinícius Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário. Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime.
O caso abriu uma crise sobre a presença do Exército na comunidade. Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. Na terça-feira (24), porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos.
Leia mais
- Jobim diz que pensão às famílias de jovens mortos em morro é "solução razoável"
- Crivella apresenta defesa à Justiça sobre obras no morro Providência
- TRE investiga informe que vincula nome de Crivella a obras do PAC
- Casa de morador é derrubada horas antes de suspensão de obras na Providência
- Navegue no melhor roteiro de cultura e diversão da internet
Livraria da Folha
- Histórias reais e chocantes da polícia deram origem a "Elite da Tropa"
- Entenda como funciona o narcotráfico, do varejo na periferia às multinacionais; leia capítulo
- Livro mostra como a violência urbana no Brasil afeta seu dia-a-dia e aponta soluções
- Saiba como o Comando Vermelho tomou conta dos morros do Rio
- Livro mostra como se tornar advogado, escolher carreira e conseguir primeiro emprego
Especial


avalie fechar
avalie fechar
avalie fechar