Governo federal conclui investigação sobre mortes do morro da Providência
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
O governo federal apresentará na quinta-feira (3) o relatório final das investigações que realizou sobre o caso dos três jovens do morro da Providência (centro do Rio) mortos após serem entregues por militares a traficantes do morro da Mineira (centro). O relatório foi feito por uma comissão da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência, que foi ao Rio para apurar o caso.
O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) vai apresentar o relatório em Brasília na manhã de quinta-feira (3), segundo a secretaria. Vannuchi esteve no Rio no último dia 20 junho de comissão constituída para apurar o caso, formada pelo presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto, pela subprocuradora-geral da República Gilda Pereira de Carvalho e pela advogada Flávia Piovesan.
Na ocasião, Vannuchi, afirmou ver muitas contradições entre os relatos que ouviu de membros do Exército, dos moradores do morro da Providência e da Polícia Civil sobre o caso. "Ouvimos os relatos do delegado responsável pelo inquérito, de representantes do Exército e dos moradores e não há nenhum encaixe entre os relatos. A comissão agora tem a incumbência de voltar a ouvir com detalhes cada um dos depoimentos e submeter isso à comparação com as peças dos inquéritos", declarou o ministro.
Também na quinta-feira (3), a Justiça fará os primeiros depoimentos dos 11 militares acusados de terem entregado os jovens a traficantes do morro da Mineira. O tenente Vinícius Ghidetti --apontado como o mandante da entrega dos jovens aos traficantes-- vai depor amanhã, além de Leandro Maia Bueno, José Ricardo Rodrigues de Araújo, Bruno Eduardo de Fátima, Renato de Oliveira Alves e Julio Almeida Ré.
Já na sexta-feira (4), prestarão depoimento Rafael Cunha da Costa Sá, Sidney de Oliveira Barros, Fabiano Eloi dos Santos, Samuel de Souza Oliveira e Eduardo Pereira de Oliveira.
Crise
No último dia 14, Wellington Gonzaga Ferreira, 19, David Wilson da Silva, 24, e Marcos Paulo Campos, 17, foram detidos pelos 11 militares no alto do morro da Providência por desacato e entregues a traficantes do morro da Mineira (centro do Rio), ligados à facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival ao CV (Comando Vermelho), que controla o tráfico no morro da Providência. O Exército começou a ocupar a comunidade em dezembro de 2007, mas saiu semana passada por ordem da Justiça, depois da morte dos jovens e de denúncias de que os militares estariam exercendo funções de segurança pública e abusos de poder.
Os militares levaram os jovens para o quartel do Exército próximo à Providência, mas o capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem liberados. No entanto, o tenente Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes do morro da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário. Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime.
O caso abriu uma crise sobre a presença do Exército na comunidade. Na semana passada, a Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro. O governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. Na terça-feira (24), porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos.
Leia mais
- Assassinos de jovens de morro estão soltos porque "polícia não faz mágica", diz Cabral
- Jobim diz que pensão às famílias de jovens mortos em morro é "solução razoável"
- Justiça aceita denúncia contra 11 militares que entregaram jovens a traficantes
- Procuradoria denuncia 11 militares por homicídio; acusados podem ser levados ao júri
Livraria da Folha
- Baseado nos relatos de dois policiais, livro retrata a inacreditável guerra urbana do Rio
- Caco Barcellos denuncia episódios de violência policial
- Saiba como o Comando Vermelho tomou conta dos morros do Rio
- Criminalista mostra por que as prisões brasileiras falham; leia capítulo
- Livro mostra como a violência urbana no Brasil afeta seu dia-a-dia e aponta soluções
- Entenda como funciona o narcotráfico, do varejo na periferia às multinacionais; leia capítulo
Especial


avalie fechar
avalie fechar
avalie fechar