Suposto elo entre militares e traficantes, sargento se contradiz em depoimento
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online
Apontado como o elo entre traficantes do morro da Mineira (centro do Rio) e os militares que atuavam no morro da Providência, o sargento Leandro Maia caiu em contradição durante depoimento ao juiz da 7ª Vara Federal Criminal, Marcello Granado, nesta quinta-feira. Ele e mais dez militares são acusados de entregar três jovens do morro da Providência a traficantes do morro da Mineira. Os criminosos que controlam as duas comunidades são rivais, e os rapazes foram mortos. Maia negou manter ligações com os traficantes.
Inicialmente, o sargento disse que desceu do veículo do Exército --em que os militares levavam os jovens-- quando entraram no morro da Mineira para dizer aos traficantes do local que eles iriam retornar pois entraram em uma rua errada no morro.
Logo depois, Maia disse ao juiz que desceu para avisar aos traficantes que os rapazes seriam entregues a eles para que levassem uma surra dos criminosos.
O sargento salientou por várias vezes durante o depoimento que a idéia de levar os traficantes ao morro da Mineira partiu do tenente Vinícius Ghidetti, que prestou depoimento antes de Maia. O depoimento do oficial terminou por volta das 17h30 e durou cerca de duas horas.
O subordinado de Ghidetti disse que não concordou em levar os rapazes aos traficantes para que eles levassem um susto, mas teve de obedecer porque o tenente é seu oficial superior.
Maia afirmou ainda que viu quando o capitão Leandro Ferrari --responsável pelo quartel na noite do dia 14 de junho, quando os rapazes foram detidos--, saiu do veículo e deu autorização para que eles saíssem levando os rapazes do quartel. O sargento disse ter acreditado que a ordem de dar um susto nos rapazes teria também partido do capitão.
"O tenente não deixou explícito para nós que ia levar os jovens a traficantes. Tinha dito apenas que ia "pintar' o "CV' [sigla para Comando Vermelho, nome de uma facção criminosa] na testa e deixá-los na [avenida] Presidente Vargas", disse o sargento.
Segundo Maia, o tenente Ghidetti, após receber ordem do capitão de liberar os jovens, afirmou que queria dar um susto neles e, para isso, ia pintar as iniciais do CV em suas testas e depois amarrá-los.
Último encontro
No caminho para o morro da Mineira, segundo o sargento Maia, o grupo de militares encontrou com Lilian Gonzaga, mãe de Wellington Gonzaga Ferreira, 19, um dos rapazes mortos após ser entregue aos traficantes.
O sargento disse que, ao ver que o filho estava com os militares, ela discutiu com o filho e disse ao rapaz que "ele ia ver quando chegasse em casa".
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