Cotidiano
04/07/2008 - 16h55

CV oferece R$ 10 mil por morte de militares que entregaram jovens a rivais

LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online

Traficantes do morro da Providência (centro do Rio) estão oferecendo R$ 10 mil pela morte de cada um dos 11 militares do Exército acusados de entregar três jovens da comunidade a traficantes do morro da Mineira. A denúncia foi feita pelo sargento Renato de Oliveira Alves, um dos acusados. Ele depõe na tarde desta sexta-feira na 7ª Vara Federal Criminal, no Rio.

Durante o depoimento, Alves afirmou ter ouvido de um sargento de um batalhão de infantaria que militares receberam, no morro da Providência, a informação de que o CV (Comando Vermelho, facção criminosa que comanda o tráfico no local) está oferecendo a recompensa "pela cabeça dos acusados".

Ainda segundo a denúncia --que Alves disse ter recebido quando chegava na 7ª Vara-- a família dos militares também estaria em risco. "Nossa cabeça está valendo R$ 10 mil. Estou preso há 18 dias e estou muito nervoso com isso", afirmou o sargento durante a sessão. Ele relatou a denúncia ao juiz Marcello Granado.

No depoimento, que começou por volta das 14h30 e prosseguia até as 16h30, o sargento alegou, em sua defesa, que fazia apenas a segurança do grupo que levou os jovens ao morro da Mineira. Ele disse que, ao ser convocado para a ação, foi informado que os militares deixariam os jovens no Sambódromo, no centro do Rio, que fica perto do morro da Providência.

"Pensava que era uma tarefa de segurança como outra qualquer. Achei estranho quando passamos do Sambódromo, mas pensei que eles iam deixar os garotos de volta na Providência."

Para Alves, tratava-se de um trote aos jovens, o que, segundo ele, é prática comum entre os militares. "Já vi colegas meus apanharem de cinto e até de porta de armário", disse. Em seguida, foi questionado pelo juiz: "Mas é normal também dar trote em civis?" O sargento respondeu que não.

Interrogatório

O depoimento do sargento e do soldado Julio de Almeida Ré seriam colhidos ontem, mas foram transferidos para esta sexta. Hoje ainda deverão depor Rafael Cunha da Costa Sá, Sidney de Oliveira Barros, Fabiano Eloi dos Santos, Samuel de Souza Oliveira e Eduardo Pereira de Oliveira.

Na quinta (3), o tenente Vinícius Ghidetti, acusado de ordenar a entrega dos jovens, depôs e alegou, ao juiz Marcello Granado, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, que queria apenas dar "um susto" nos moradores da Providência.

Os 11 militares respondem na Justiça por triplo homicídio triplamente qualificado --motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas.

Crime

No último dia 14, Wellington Gonzaga Ferreira, 19, David Wilson da Silva, 24, e Marcos Paulo Campos, 17, foram detidos pelos 11 militares no alto do morro da Providência por desacato e entregues a traficantes do morro da Mineira (centro do Rio), ligados à facção ADA, rival ao CV.

O Exército começou a ocupar o morro da Providência em dezembro de 2007, mas saiu no último dia 25 por ordem da Justiça, depois da morte dos jovens e de denúncias de que os militares estariam exercendo funções de Segurança Pública e abusos de poder.

Os militares levaram os jovens para o quartel do Exército próximo à Providência, mas o capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem liberados. No entanto, o tenente Vinícius Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário. Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime.

O caso abriu uma crise sobre a presença do Exército na comunidade. A Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro, e o governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. No dia 24, porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Nelson Jobim (Defesa) anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.

Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos.

Comentários dos leitores
antonio kalil (1) 15/08/2008 09h35
antonio kalil (1) 15/08/2008 09h35
Sr Joel Cajazeira...tal comentário mostra que o sr. faz questão de representar bem seu sobrenome, pelo menos pela série Bem Amado..das irmãs cajazeiras, que eram hilárias, tal qual seu comentário. Qual crime cometeu o representante do Exército? Todos que possamos imaginar. Desde uma detenção arbitrária, que fizeram. Julgar-se autoridade acima do bem e do mal,pois sentiram-se ofendidos e tinham que dar um castigo nos jovens. Julgamento sumário de que eram bandidos e tinham que ser entregues a algozes ( estes sim bandidos declarados ) para serem executados. Ou será que ele ( tenente ) achou que os carrascos iriam levar os jovens apenas para um passeio. Ligação suspeita dos militares com este bando ( que dizem ser de traficantes ), que parecem manter política da boa vizinhança entre si..... Portanto, motivos não faltam para que um juiz os condene demodo exemplar, para expurgar estas atitudes de nossa sociedade.E que a Aman possa se refazer da vergonha em que foi exposta, por preparar OFICIAIS com este pensamento do tenente que comandou esta operação. E quanto a ensinar táticas de guerra aos bandidos, pela amizade mantida. ele já deveria estar fazendo, pela tranqüilidade em que se moveram pelo morro. Lamentável seu comentário sr Joel. A JUSTIÇA não pode ver quem cometeu o crime, mas sim julgar corretamente quem o praticou. sem opinião
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richardson leao (18) 15/08/2008 06h56
richardson leao (18) 15/08/2008 06h56
Isso o exercito brasileiro faz bem... suportou e cometeu tortura no passado e suporta e comete tortura no presente... 1 opinião
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Dilson Aquino (16) 31/07/2008 18h26
Dilson Aquino (16) 31/07/2008 18h26
O nome-de-guerra do bandido é Rupinol, uma corruptela carioca da droga "Rohypnol", um sedativo hipnótico. sem opinião
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