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Cotidiano
07/07/2008 - 13h08

Cerca de 30 pessoas se perdem por ano na selva amazônica

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KÁTIA BRASIL
da Agência Folha, em Manaus

Turistas e aventureiros são a maior parte das 30 pessoas que, em média, se perdem a cada ano na selva amazônica. Na floresta, nem o sistema GPS é útil para buscas por causa da copa das árvores. No dia 28 de junho, o jovem Jonathan dos Santos Alves, 18, morreu após ficar 50 dias desaparecido na selva.

Nos últimos três anos, o Ciops (Centro Integrado de Operações de Segurança) do Corpo de Bombeiros do Amazonas contabilizou 95 pessoas desaparecidas.

Elas levaram de quatro a oito dias para serem localizadas e resgatadas nas operações de busca, depois que as famílias acionaram os bombeiros.

Jonathan dos Santos não teve a mesma sorte. Ele foi encontrado vivo, mas não resistiu e morreu nos braços do pai, o agricultor e mateiro Edilson Avelino dos Santos, 40. As operações de busca foram encerradas depois de 20 dias, mas o pai não desistiu.

O rapaz caçava com dois amigos, distanciou-se do grupo e se perdeu em uma área inóspita da floresta nativa que margeia a BR-174 em Presidente Figueiredo (107 km a norte de Manaus). Caçar, pescar, procurar plantas e se aventurar na selva são as principais causas dos desaparecimentos.

O chefe de operações do Ciops, Jorcimar Justamante, diz que a maior parte das pessoas que desaparecem na Amazônia são jovens turistas, esportistas e aventureiros. Nos fins de semana ocorrem 42% dos registros de buscas.

O morador da região conhece as árvores e as trilhas e sabe que deve sair antes do anoitecer. "Os aventureiros entram na selva sem equipamentos básicos ou planejamento. Quando recebemos a emergência, a pessoa já desapareceu há dois dias e andou 16 quilômetros. Sem referência, é como procurar uma bola de golfe na selva", afirma Justamante.

Os resgates na selva são realizados principalmente com base nas cartas geográficas da região e rastreamento de vestígios, como pegadas, restos de comida e o cheiro da pessoa.

O equipamento GPS (sigla em inglês para sistema de posicionamento global) não é capaz de localizar os perdidos. As copas das árvores, que chegam a medir mais de 40 metros, impedem que o equipamento alcance os sinais de satélites de navegação. "Só é possível [o uso do GPS] se a pessoa estiver numa clareira ou na margem de um rio", diz o chefe do Ciops.

Neste ano, o órgão resgatou 31 pessoas, 15% a mais do que em todo ano de 2007, quando 27 pessoas foram salvas. Em 2006 foram 37. O Corpo de Bombeiros tem 230 homens treinados para salvamento em selva e ambientes confinados. Eles recebem treinamento no Centro de Instrução de Guerra na Selva do Exército.

Na corporação, a morte de Jonathan dos Santos é tida como fato inédito, mas com dois complicadores principais: a família demorou sete dias para acionar os bombeiros e o rapaz entrou em pânico --não ficou parado em um lugar.

"Ele corria desorientado. Fez volta pelo mesmo caminho várias vezes. Enquanto estávamos num lugar, ele estava em outro", conta o tenente Andrey Costa, que esteve nas buscas.

Dicas

Manter-se calmo, orientado e alimentado são as principais recomendações que os bombeiros fazem para quem se perde na selva amazônica. A corporação tem uma norma de segurança chamada de "Esaon" --sigla para estacione, sente-se, alimente-se, oriente-se, navegue.

É importante também fazer uma fogueira, para secar as roupas e não dormir molhado. Com um dia perdido na selva, a pessoa é atacada por fungos, principalmente na virilha e axilas, além de insetos.

O tenente Jorcimar Justamente, do Corpo de Bombeiros do Amazonas, diz que, depois de ter se alimentado, a pessoa pode andar para saber o que há nas proximidades, como água e frutas nativas.

"Depois que se alimenta a pessoa vai ter um pouco mais de proteína para buscar um deslocamento e se orientar a partir do pôr do sol, observação das estrelas, rios e igarapés", disse.

Para não se perder, as recomendações são entrar na floresta portando bússola, apitos, lanternas, fogos de artifício e isqueiros, além de um kit básico de primeiros socorros. Vacinas são muito importantes.

Justamante explica que animais como onças e cobras são perigosos, mas não atacam facilmente. "As cobras só atacam se pisarem nelas, por isso é importante andar em trilha. As onças são muito comuns, mas ela primeiro esturra [rosna], não ataca logo", disse.

Em 2004, ele participou de buscas a um casal de turistas de Pernambuco que foi passear em uma cachoeira, em Presidente Figueiredo (107 km a norte de Manaus) e se perdeu.

Foram três dias de buscas sem encontrar vestígios, tirados pela chuva. O casal foi encontrado parado, o que facilitou o resgate. Alimentou-se de maracujá do mato. "Eles perderam três quilos e foram bastante picados pelos mosquitos, não dormiram e sentiram muito frio, mas ficaram eufóricos quando encontramos", afirmou o tenente.

 

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