Cotidiano
08/07/2008 - 21h05

Cabral diz que policiais que atiraram em menino "estão expulsos" da PM

da Folha Online

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse que os dois policiais que atiraram contra o carro onde estava o menino João Roberto Amaral, 3, serão expulsos da Polícia Militar. O garoto morreu ontem (7), após ser baleado pelos policiais na Tijuca (zona norte), domingo (6). Ele foi enterrado nesta terça-feira no cemitério do Caju.

Para Cabral, as imagens divulgadas hoje da ação dos policiais não deixa dúvidas sobre a ocorrência. Questionado sobre a situação dos PMs na corporação, o governador disse que estão expulsos. O governador definiu o caso como "uma atrocidade, um erro fatal, uma completa incapacidade de discernimento".

"Não é possível atirar em um veículo fechado, sair "alvejando' um veículo assim. A ação foi completamente fora da orientação dada pelo comando da polícia. Estão fora da PM, não tem conversa, uma família foi metralhada. E vão para fora quantos forem necessários, seja extorquindo, seja matando inocentes. São dois assassinos", disse o governador sobre a ação dos policiais.

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Gilson Pita, informou nesta terça-feira, por meio de nota, que deverá anunciar nas próximas 72 horas qual a punição será aplicada aos soldados que atiraram contra o carro da mãe do menino, Alessandra Amaral.

"Normalmente são 30 dias pelas leis, mas neste caso, pelo clamor público, com certeza ele estará ultimado em muito pouco tempo. Em 72 horas estará consumado o ato, independentemente das providências tomadas pela Polícia Judiciária e a Polícia Civil", afirmou o coronel Pita.

Enterro

Cerca de 300 pessoas participaram no final da tarde desta terça-feira do enterro do menino João Roberto. A mãe e uma das avós do menino passaram mal durante o enterro que aconteceu no cemitério do Caju.

Ao chegar no cemitério, o pai de João, o motorista de táxi Paulo Roberto Soares, pediu mudanças na PM do Rio. Ele chamou de monstros os PMs que atiraram contra o carro de sua família e afirmou que, mesmo que fossem bandidos, os PMs não deveriam ter atirado.

"E se fossem bandidos? Qual o problema? Prendessem os caras. Não podem botar monstros na rua para matar pessoas. Aqui não tem pena de morte."

Também participaram do enterro parentes de pessoas mortas em decorrência da violência e por PMs, no Rio. "O pior dos crimes é o que é perpetrado por agentes do Estado. O meu filho foi morto por policiais e ainda tivemos que provar que ele não era bandido", disse a dona de casa maria Dalva da Costa, 52. Ela conta que o filho dela foi morto em 2003 durante uma operação policial no morro do Borel, também na Tijuca.

Os parentes das vítimas planejam realizar uma manifestação na Tijuca no próximo dia 29, quando João completaria 4 anos.

Câmeras

Nesta terça-feira, a Polícia Civil recebeu imagens feitas por câmeras do circuito interno de um prédio situado perto do local do crime.

Nas imagens, diversos carros passam pela rua e, a certa altura, o carro da família encosta. O pai de João diz que, neste momento, a mulher dele, que dirigia, viu um carro passar em alta velocidade e percebeu que ele era seguido por um carro da PM. Ela, então, encostou para dar passagem aos PMs.

Os policiais, porém, param metros atrás do carro da família, descem, se posicionam atrás de um poste e de uma árvore e começam a atirar. Nas imagens, é possível ver quando a mãe joga a sacola de bebê pela janela para alertar os PMs sobre a presença de crianças no carro. O pai das crianças diz que ela ainda ouviu os PMs perguntarem "Cadê o bandido?" antes de descer e retirar o corpo do filho da cadeira de bebê, no banco traseiro.

De acordo com o pai, João já estava ferido, quando a mulher jogou a sacola pela janela.

Em depoimento, os dois PMs --William de Paula e Elias Gonçalves da Costa Neto-- disseram ter atirado em resposta a ladrões de carro.

Prisão

Nesta terça-feira, o delegado-titular da 19ª DP (Tijuca), Walter de Oliveira, que investiga o caso, enviou uma cópia do vídeo e um pedido de prisão temporária dos PMs à Justiça. Os dois PMs estão presos administrativamente desde ontem no 6º Batalhão (Tijuca), onde são lotados, mas o prazo da punição termina amanhã (9). Já a prisão temporária pedida pelo delegado, se aceita, pode valer por 30 dias.

A Justiça do Rio ainda não se manifestou sobre o pedido.

 

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