Obras param no morro da Providência por falta de verba
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
As obras do projeto Cimento Social no morro da Providência (centro do Rio) tiveram de ser paralisadas por falta de verbas. As construções estavam sendo feitas por meio de um mutirão, desde que a Justiça determinou a interrupção das obras, sob a alegação de caráter eleitoral.
A permanência do projeto no morro da Providência entrou em discussão após a morte de três jovens da favela, entregues a traficantes do morro da Mineira (centro) por militares do Exército, que estava no morro da Providência para garantir a segurança e a execução das obras do projeto, que tinha como objetivo reformar cerca de 700 casas. O projeto é de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB) e foi encampado pelo governo federal sem que houvesse aprovação do Senado para isso. Por esses dois motivos, a Justiça Eleitoral julgou que as obras eram irregulares.
Sem verbas, os funcionários vinham realizando as obras com material reserva ainda disponível na construtora Edil, que realizava as obras com recursos do governo federal, de acordo com o encarregado pelas obras, Alex de Oliveira. Mas os recursos só duraram até a tarde de ontem (9), de acordo com Oliveira. "Sem material e sem verba, fica difícil tocar as obras", disse.
As verbas do governo federal destinadas ao projeto também estão bloqueadas. A Advocacia Geral da União recorreu à determinação da Justiça Eleitoral de paralisar as obras, mas o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Rio informou que não há previsão de julgamento do recurso.
Sem as verbas da União, a esperança dos funcionários eram recursos de cerca de R$ 80 mil doados por empresários por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio. No dia seguinte à decisão da Justiça de suspender as obras, o secretário da pasta, Marcelo Garcia, esteve no morro da Providência e disse que organizaria o mutirão para a retomada das obras com recursos doados por empresários. Com a proposta, os moradores conseguiram o aval para retomar os trabalhos em regime de mutirão. Até esta quinta-feira, porém, Oliveira afirmou que os funcionários ainda não haviam recebido o valor de R$ 80 mil que a Secretaria de Assistência Social afirmou ter arrecadado com empresários.
A secretaria informou, por meio da assessoria de imprensa, que aguardava os funcionários abrirem uma conta para o valor ser depositado, o que, segundo a assessoria, já foi feito. Agora, a secretaria disse que só na segunda-feira (14) vai divulgar a forma como o repasse das doações será feito.
Crime
Em 14 de junho, Wellington Gonzaga Ferreira, 19, David Wilson da Silva, 24, e Marcos Paulo Campos, 17, foram detidos pelos 11 militares no alto do morro da Providência por desacato e entregues a traficantes do morro da Mineira, ligados à facção criminosa ADA (Amigos dos Amigos), rival ao CV (Comando Vermelho), que controla o tráfico no morro da Providência. O Exército começou a ocupar o morro da Providência em dezembro de 2007, mas saiu no último dia 25 por ordem da Justiça, depois da morte dos jovens e de denúncias de que os militares estariam exercendo funções de Segurança Pública com abuso de poder.
Os militares levaram os jovens para o quartel do Exército próximo à Providência, mas o capitão Leandro Ferrari, que comandava o quartel no momento, ordenou que os rapazes fossem liberados. No entanto, o tenente Vinícius Ghidetti, que havia levado os jovens ao quartel, desobedeceu a ordem e, com outros dez militares, entregou aos traficantes da Mineira os rapazes, que apareceram mortos no dia seguinte em um aterro sanitário. Os 11 militares foram presos no dia seguinte e, segundo a polícia, confessaram o crime.
O caso abriu uma crise sobre a presença do Exército na comunidade. A Justiça Federal determinou a retirada dos militares do morro, e o governo federal recorreu e conseguiu que a Justiça mantivesse as tropas, mas somente na rua onde as obras são feitas. No dia 24 de junho, porém, a Justiça Eleitoral determinou a paralisação das obras, alegando caráter eleitoral no projeto, e, com isso, o ministro Jobim anunciou que o Exército também deixaria totalmente o morro.
Traficantes do morro da Mineira suspeitos de terem matado os três jovens ainda não foram presos. Dos 11 militares, três foram soltos ontem por determinação da Justiça e oito permanecem presos no Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca (zona norte do Rio).
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