Parentes de vítimas do Airbus da TAM acusam companhia de priorizar lucro e não segurança
PAULO TOLEDO PIZA
Colaboração para a Folha Online
Parentes das vítimas do vôo 3054 da TAM acusam companhia aérea de priorizar o lucro em detrimento à segurança. O acidente, que completa um ano nesta quinta-feira, matou 199 pessoas e é considerado o maior desastre aéreo da história do Brasil. Até hoje, 79 famílias fecharam acordos de indenização com a TAM.
Na noite de 17 de julho de 2007, ao tentar aterrissar, o Airbus-A320 da TAM passou direto por uma das pistas do aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo), atravessou a avenida Washington Luís, bateu contra um galpão da própria empresa e explodiu.
"A TAM não cumpriu o que deveria ter feito há um ano [em relação à segurança]. Ela sempre estará em débito conosco por causa do acidente.", disse o professor Dario Scott, 45 anos, presidente da Afavitam (Associação dos Familiares das Vítimas da TAM - JJ3054).
Pai de Thais Scott, 14 anos, que estava no avião no momento em que ele se chocou com o prédio da TAM Express, próximo ao aeroporto de Congonhas, Dario afirma que sua vida mudou após o acidente. "Já faz um ano e eu nem acredito que ela [Thais] não está mais aqui. É muito complicado."
Scott contou que a tristeza aumentou com a informação de que Jair Cesário, parente de Priscila Cesário, morta no acidente, sofreu um infarto fatal na terça-feira. "Isso mostra o quão forte está sendo este um ano após o acidente."
A partir desta quinta, a Afavitam promove uma série de atividades para lembrar o acidente.
Para o empresário Archelau de Arruda Xavier, 55, vice-presidente da Afavitam, a "questão da segurança aérea vai continuar sendo um perigo enquanto continuar na ordem em que estão os sete mandamentos da TAM".
Segurança x lucro
A companhia aérea possui uma lista de preceitos formulados pelo comandante Rolim Amaro, ex-dono da TAM. O primeiro mandamento da companhia diz respeito ao lucro --"nada substitui o lucro". A segurança vem apenas em terceiro lugar --"mais importante que o cliente é a segurança"--, atrás também da qualidade --"em busca do ótimo não se faz o bom".
"Os familiares pedem à dona Maria Cláudia Amaro, dona da TAM e filha do comandante Rolim, que, em respeito às vitimas, coloque a segurança no lugar do lucro. É uma clausula pétrea que só ela pode mudar", disse Xavier.
O empresário, que perdeu a filha Paula de Arruda Xavier, 24, no acidente, afirmou que este foi o ano mais difícil de sua vida. "A cruz ficou mais pesada", completou.
A assessoria de imprensa da TAM afirma que os sete mandamentos da empresa não tem uma hierarquia em termos de importância. Eles devem ser lidos, entendidos e praticados em conjunto, segundo a assessoria. Ela informa ainda que a TAM não irá se manifestar sobre a questão da segurança de seus aviões enquanto não terminar o inquérito de investigação do caso.
Manutenção
Apesar de não ter parentes no vôo 3054, Sandra Assali participa ativamente no auxílio aos parentes das vítimas daquele acidente. Presidente da Abrapavaa (Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos), ela perdeu o marido, o médico José Abu Assali, no acidente envolvendo um Fokker 100 da TAM, ocorrido em 1996 e que deixou 99 mortos.
Para ela, medidas de segurança foram tomadas apenas após o acidente, "o que é muito ruim, pois [isso prova que] o acidente poderia ter sido evitado".
A viúva afirma que os acidentes aéreos seriam evitados se uma série de medidas simples, como a manutenção das aeronaves e a diminuição dos vôos, fossem tomadas. "Todo acidente aéreo pode ser evitado. Acredito que acidente aéreo não é fatalidade."
"Congonhas é critico. É questão de tempo para que aconteça outro acidente. Por segurança, o aeroporto só poderia receber vôos com 60 passageiros com carga ou 150 sem carga. É como um porta-aviões, só que sem o mar para aparar a queda", afirma.
Moradora do bairro de Moema, que fica próximo a Congonhas, Sandra afirmou que no dia do acidente assistiu, chocada, ao fogo consumir o prédio da TAM Express. "No dia seguinte vi aquela fumaça que ficou durante três dias no ar. Foi horrível", disse.
Outro lado
A TAM divulgou um relatório numérico detalhado nesta terça-feira com informações sobre a assistência prestada até agora aos familiares das vítimas do vôo 3054. Sobre as indenizações às famílias, a TAM diz que 79 acordos foram "fechados e indenizações pagas", 155 famílias receberam "adiantamento das indenizações", e 138 famílias receberam pagamento de seguro.
A empresa informa ainda que concedeu 4.190 passagens aéreas, gastou R$ 11,4 milhões em despesas de apoio --como hospedagem e alimentação--, e R$ 1 milhão com reembolso de despesas, e concedeu 633 planos de saúde com validade até outubro de 2009 aos familiares.
A TAM diz ainda que subsidiou apoio psicológico aos familiares, apoio financeiro ao IML (Instituto Médico Legal) para compra de equipamentos, apoio na recuperação de pertences da vítimas e assistência funerária.
O documento também apresenta um comparativo entre as ações de assistência da TAM e o "padrão internacional de assistência" à vítimas de acidentes, em que demonstra ter cumprido, e, em diversos casos, superado o padrão.
No item "auxílio saúde aos familiares", o padrão estabelece "um ano de auxílio psicológico aos familiares diretos". A TAM diz que fornece "dois anos de assistência médica e psicológica para familiares, cônjuges e irmãos".
colaborou ÉBANO PIACENTINI
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