Sem querer, governo de SP acha lista de passageiros do Kasato Maru
GABRIELA MANZINI
da Folha Online
Um importante documento para a história da imigração japonesa no Brasil --que completou cem anos em junho passado-- estava perdido em uma das caixas Arquivo Público do Estado de São Paulo. Trata-se da lista com a identificação dos primeiros imigrantes daquele país que embarcaram, rumo ao Brasil, no navio Kasato Maru. Os pesquisadores já conheciam a lista feita na chegada ao Brasil, mas não a feita na saída do Japão.
"Foi uma coincidência mesmo. Fazíamos um levantamento em 386 caixas de requerimentos da Secretaria de Agricultura, que cuidava da imigração no final do século 19 e no século 20, quando encontramos o documento. Ele está bastante conservado", relata Sonia Troitiño, diretora do Arquivo Permanente.
O passo seguinte foi digitalizar a lista e disponibilizá-la na internet.
| Reprodução |
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| Detalhe de uma página da lista de passageiros do Kasato Maru |
Quem assina a lista é um funcionário do Consulado do Brasil em Yokohama, em 30 de abril de 1908. Na carta endereçada ao então secretário estadual de Agricultura, a autoridade que, na época, era responsável pelas imigrações, ele explica que há falhas na lista e que não pôde corrigi-las "por falta de tempo".
"Espero que elas [falhas] serão desculpadas, atendendo a que é a primeira vez que d'aqui se manda imigrantes para o Brasil, e que os costumes desta terra são completamente diferentes dos nossos", escreve o funcionário. Ele cita, por exemplo, o fato de haver diferenças entre as datas de nascimento e as idades dos passageiros --o funcionário afirma que, no Japão, bebês completam um ano quando começa o ano seguinte, e não necessariamente após 12 meses.
Na carta há ainda outras curiosidades. O funcionário, a certa altura, escreve que "o japonês, mais do que qualquer outro imigrante, só trabalha sob as ordens de um chefe, a quem obedece cegamente". Escreve ainda que os imigrantes foram todos vacinados e as bagagens desinfetadas antes do embarque; e que o biotipo nipônico lhe parece "mais fraco do que forte".
"Seria interessante comparar essa lista de saída do Japão e a lista de chegada no Brasil para ver quem ficou pelo caminho, já que a viagem não era das mais fáceis", propõe Troitiño.
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