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Cotidiano
30/07/2008 - 20h40

Médico suspeito de furar fila de transplantes falsificava laudos e enganava funcionários

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LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio

O médico Joaquim Ribeiro Filho, acusado de chefiar suposto esquema de venda de lugares na fila de transplantes de fígado no Rio, emitia laudos falsos e enganava funcionários da central de transplantes do Rio para conseguir tirar fígados de pacientes que estavam no topo da lista para recebê-los, segundo denúncia feita pelo Ministério Público Federal à Justiça contra o grupo.

O esquema foi desarticulado na manhã desta quarta-feira em operação da Polícia Federal denominada Fura-Fila. Ribeiro Filho, que tinha mandado de prisão expedido, foi preso em sua casa, em Laranjeiras (zona sul do Rio).

Para conseguir burlar a fila dos transplantes, Ribeiro Filho agia de duas formas, de acordo com o procurador Marcello Miller, autor da denúncia. Em uma delas, dava falso atestado de que um órgão humano era marginal --ou inadequado-- quando, na verdade, estava apto a ser transplantado. Dessa forma, desviava esse órgão para pacientes que pagavam taxas.

"Quando ele foi coordenador da central de transplantes do Rio, adotou entendimento que o órgão marginal podia ser destinado pela própria equipe, e isso não existe", disse.

Em outra frente, segundo Miller, o médico monitorava fígados que chegavam ao Rio e dizia aos funcionários da Central de Transplante que levaria o órgão para o primeiro paciente da fila. A própria equipe de Miller envolvida no esquema pegava o órgão e o transplantava para os pacientes que haviam furado fila. "Ele induzia a central a acreditar que estava pedindo o órgão na qualidade de chefe do hospital da UFRJ para um paciente que era o primeira da lista".

Durante as investigações, escutas telefônicas autorizadas pela Justiça monitoraram conversas de médicos que diziam saber da prática criminosa mas não poder fazer nada para desarticular o esquema, segundo Miller.

Com documentos apreendidos hoje em nove mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal, Miller disse que vai agora procurar mais casos de transplantes feitos através da suposta fraude e outros médicos que podem ter participado do esquema.

Mudanças

Amanhã, o diretor de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Alberto Beltrame, se reunirá no Rio com o secretário Estadual de Saúde, Sérgio Cortes, para discutir a nova determinação do ministério de concentrar todos os transplantes de fígado do Rio apenas no HGB (Hospital Geral de Bonsucesso). A medida foi anunciada nesta quarta-feira e aconteceu em decorrência da suposta fraude desarticulada na operação Fura-Fila, de acordo com o ministério.

Atualmente, três unidades são credenciadas para esse tipo de transplante no Rio: o HGB, o hospital de Itaperuna, o hospital da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a clínica São Vicente, na Gávea (zona sul). O médico Joaquim Ribeiro Filho, foi chefe do setor de transplantes hepáticos do hospital da UFRJ, além de coordenador do Rio Transplantes, órgão do governo estadual do Rio que administra as doações.

Em sindicância para investigar supostas irregularidades da equipe, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio chegou a afastar o grupo, mas, segundo o subsecretário jurídico da secretaria, Paulo Henrique di Masi, os médicos conseguiram na Justiça liminar para se manter no hospital.

Apesar de pertencer ao hospital da UFRJ, Ribeiro Filho realizava os transplantes irregulares na clínica São Vicente, a única unidade privada credenciada para a operação no Rio. Fazia isso para obter lucro dos reembolsos pagos aos planos de saúde nos transplantes da clínica, segundo as investigações da Polícia Federal.

"A quadrilha passou a desviar órgãos de pacientes que deveriam ser operados no hospital do Fundão para uma clínica particular [São Vicente], em troca de pagamento de honorários recebidos diretamente pelos pacientes ou através de planos de saúde", diz a PF, em nota.

Nesta tarde, a clínica São Vicente divulgou nota em que nega qualquer irregularidade ou envolvimento no suposto esquema criminoso

Esquema

Ribeiro Filho, que era credenciado ao sistema nacional de transplantes, colocava na frente de pessoas que estavam no topo da lista de doações pacientes que pagavam a ele taxas que variavam entre R$ 200 mil e R$ 250 mil, conforme as investigações. Ele e outros quatro médicos suspeitos de participar do esquema foram denunciados à Justiça por peculato --apropriação ilegal de recursos.

Outro lado

A advogada de Joaquim Ribeiro Filho negou o envolvimento do médico na suposta fraude e afirmou que ele é vítima de perseguição por denunciar suposta precariedade do sistema de saúde do Rio.

"O doutor Joaquim é um médico muito experiente, um dos mais reputados na área de transplante, mas é muito combativo. Ele vem denunciado a precariedade da saúde no Rio e, com isso, angariando inimigos", afirmou a advogada Simone Kamenetz.

 

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