À CPI delegado diz que traficantes "compram" favelas de milícias no Rio
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Traficantes e milicianos estão negociando com outros grupos de milícia a "venda" de favelas e áreas de baixa renda no Rio, sobretudo na zona oeste da cidade, segundo investigações da Polícia Civil detalhadas nesta quarta-feira pelo delegado Cláudio Ferraz, titular da Draco (Delegacia de Repressão ao Crime Organizado).
Por meio de pagamentos, os grupos entregam a traficantes ou outros milicianos o comando das atividades ilegais que exerce no local, entre elas a venda de gás, a instalação de pontos de televisão a cabo clandestinos e o controle do transporte alternativo da área, segundo as investigações da Polícia Civil citadas pelo delegado em depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Alerj (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).
A venda, segundo as informações, já aconteceu na favela Kelsons (zona norte) e áreas da Baixada Fluminense.
"Existem registros de 'vendas' [de favelas] para outros milicianos, uma passagem do ponto, assim como para traficantes também", disse o delegado. "É uma venda de "porteiras fechadas', de todas as atividades ilegais também".
Além da venda de áreas para outros grupos, Ferraz disse ter informações de que a milícia já começa a exercer forte influência em Jacarepaguá (zona oeste), vizinha de Campo Grande, bairro apontado pela polícia como o bairro onde há a maior atuação de milícia no Rio e de controle do deputado estadual Natalino Guimarães (sem partido), preso no fim de julho.
A informação vai mudar os rumos das investigações da CPI das Milícias, disse o presidente da comissão, deputado Marcelo Freixo (PSOL). "Agora vamos poder sair de Campo Grande e ir para outras áreas", disse Freixo, que anunciou a convocação de delegados que atuam em Jacarepaguá para falar da suposta influência de milícias na área.
Na sessão o delegado afirmou que a Secretaria Estadual de Segurança do Rio estuda a criação de uma câmara estadual de repressão ao crime organizado, um mecanismo para aproximar e tornar comuns investigações e processos do Tribunal de Justiça e da Secretaria de Segurança sobre o crime organizado no Rio.
O projeto, segundo Ferraz, está em fase de regulamentação e vai gerar mudanças na estrutura da Polícia Civil do Rio e da própria Draco, que o delegado chefia.
Natalino
O deputado Natalino Guimarães foi preso em flagrante no fim de julho ao participar de suposta reunião de milicianos na sua casa. Na quarta-feira (6), os deputados da Alerj decidiram, por 43 votos a cinco, manter Natalino preso. Por lei, a Alerj tem prerrogativa para soltar deputados estaduais do Rio presos em flagrante se julgar que a prisão é inconstitucional.
Também ontem, o DEM, partido ao qual Guimarães fazia parte, decidiu expulsar o deputado da legenda.
Além de Guimarães e de seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães (PMDB), também preso, a CPI das Milícias investiga a influência de outros políticos em grupos. Freixo disse que a Polícia Civil entregou à CPI relação de todos os políticos citados em investigações atuais da polícia sobre milicianos. O deputado não revelou os nomes.
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