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Cotidiano
15/09/2008 - 10h24

Pimenta na calçada vira arma contra cocô de cachorro em São Paulo

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ESTÊVÃO BERTONI
da Folha de S.Paulo

Estão ardidas as calçadas de Copacabana, uma rua em Santana, na zona norte de São Paulo, onde mora a auxiliar de enfermagem Lígia Santos, 60.

Cansada de atolar o pé em cocôs de cachorro na porta de casa toda manhã, ela apelou para uma tática que considera altamente eficaz para espantar a cachorrada: destampou o vidro de conserva e "temperou" a calçada com pimenta. "Funciona que é uma beleza", afirma a auxiliar de enfermagem.

Em média, 12 pessoas ligam diariamente para a prefeitura para solicitar a limpeza de vias públicas --sujas não só por fezes de cachorro. A Folha visitou alguns bairros e constatou que a insatisfação é grande.

Fixada em 2001, a lei municipal 13.131 estipula uma multa de R$ 10 para quem não recolher das ruas as fezes de animal --longe dos valores da Lei Cidade Limpa, de no mínimo R$ 10 mil para quem descumpri-la. De difícil fiscalização, como reconhece a própria prefeitura --que não informou se já foi registrada alguma punição--, os moradores vão se virando para contornar a sujeira.

Cartaz e café

A batalha de Lígia, por exemplo, vem de longa data. Há alguns meses, colou no muro o cartaz: "Cuidado com o cão, veneno no chão". Para dar um tom verídico, espalhou pó de café na entrada de casa.

Resultado: ganhou inimizades, travou bate-bocas e recebeu até ameaça de que aquilo viraria caso de polícia. "A vizinha disse que ia me processar, chamar a polícia. Pode chamar, eu tenho razão", esbraveja a auxiliar de enfermagem.

Sem lixeira nos arredores, a Copacabana paulistana tem trechos intransitáveis. Ao lado da casa de Lígia, onde há uma construção, os cocôs se proliferam. "Os donos até recolhem a sujeira em saquinhos, mas jogam na rua, onde ninguém reclama", conta.

A lata de lixo mais próxima aliás, não fica nem na rua, mas em uma banca de jornais, e traz uma placa que pede aos moradores o favor de não jogarem ali cocô de seu cachorro.

Celina Maeda, dona da banca, se justifica: "O lixo da rua só é recolhido terça, quinta e sábado. Se eu permitir que joguem cocô de cachorro, fica um cheiro ruim que espanta os fregueses". Para ela, a questão é simples: o dono deveria levar para casa a sujeira feita por seu cão.

É o que faz a aposentada Ivone Pelliciari de Almeida, 66, que mora a poucas ruas de Lígia. Ao passear com a fox paulistinha Xuxa, 13, leva um aparato que consiste em papel toalha, saco plástico e serragem, que, segundo ela, facilita a limpeza quando o cocô está mole. Ela, porém, reclama do bairro: "Minha netinha aprendeu a falar cocô de tanto ver nas ruas".

Lixeira com mensagem

Se morasse na rua Cayowaá, em Perdizes (zona oeste), a neta de dona Ivone talvez adotasse outro vocabulário. Uma ONG distribuiu lixeiras pela rua com os dizeres: "Calçada não é privada, é pública".

Mas a iniciativa não foi estendida a todo o bairro. É disso que reclama a psicóloga Marita Soares, que passeia por lá todo dia com Baldo, um pastor alemão. "Não vejo isso nas outras ruas."

Aparentemente limpos, praças e parques têm de ser cuidados o tempo todo. Compete a Valderi Sousa, 43, a limpeza diária da Benedito Calixto, em Pinheiros (zona oeste). Contratado pela associação de amigos da praça, ele lamenta: "Se soubesse que você viria, tinha deixado num canto para te mostrar. Dá pra vender de quilo".

Na praça Buenos Aires, em Higienópolis (centro), mesmo com a distribuição de saquinhos patrocinada por pet shops do bairro, a sujeira é grande, e o trabalho, árduo. Renato Cordeiro, 23, responsável pela limpeza, diz encher um saco de 40 litros por dia com fezes de cão.

Enquanto as multas ainda não são aplicadas, Lígia continuará recorrendo à pimenta, que já perdia a validade. Despediu-se da reportagem com a promessa de aplicar uma nova demão na calçada em breve.

Comentários dos leitores
JOHN WAGNER PRATES (1) 17/09/2008 11h31
JOHN WAGNER PRATES (1) 17/09/2008 11h31
A questão é simples, FALTA DE EDUCAÇÃO!
Ninguém é obrigado a conviver com fezes de cachorros alheios. Medidas mais drásticas deveriam ser tomadas. Quando estive no Japão, percebi que não há cães nas ruas, só aparecem com os seus donos, acorrentados. Quando acabam de fazer as suas sujeiras, os donos recolhem num saco plástico, colocam nas lixeiras apropriadas nas esquinas das ruas e pronto! Simples, civilizado, higiênico e consciente. Aqui, na maioria das vezes presenciamos, além dessa porcariada nojenta, os donos todos nervosinhos não querendo compreender tamanha intolerância. Ora, bolas! Inacreditável a falta de no mínimo de senso de civilidade, é grosseria demais. Que me perdoem os brasileiros, que sou também, mas que povinho maloqueiro e mal educado. Senhor próximo Prefeito, vamos investir com rigor na Educação, para que as próximas gerações tenham, pelo menos, um quarto da educação e consciência dos japoneses.
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Alexandre Farid (1) 17/09/2008 10h53
Alexandre Farid (1) 17/09/2008 10h53
Vou além da questão da falta de civilidade dos donos dos cães. Incrível não ter lixeira numa rua com esse problema. a prefeitura deveria colocar uma lixeira especial para as fezes de cachorro. Se não põe, a própria comunidade deveria fazer comprar, em nome do bem de todos. 18 opiniões
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Lili pires (23) 17/09/2008 10h09
Lili pires (23) 17/09/2008 10h09
Está certissssima, as pessoas já não tem cachorro para não ter enchessao de saco...e tem q. ficar limpando coco de cachorro dos outros na porta de casa...absurdo!!!!Genial idéia. 27 opiniões
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