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Cotidiano
07/10/2008 - 09h37

Inclinação em imóvel danificado por obra do Metrô chega a causar enjôo

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TALITA BEDINELLI
colaboração para a Folha de S.Paulo
RICARDO SANGIOVANNI
da Folha de S.Paulo

Do lado de fora, a residência da dona-de-casa Nadir Brasil, 38, parece um brinquedo de parque de diversões: o portão está torto, e o piso, inclinado para a frente, como se a parte superior da casa fosse tombar.

Andar no interior do imóvel causa uma sensação bastante parecida com a de um barco que navega em dia de mar calmo. O imóvel não se move, mas a inclinação chega a causar enjôo em estômagos sensíveis.

Para demonstrar o problema, a dona-de-casa pega uma bolinha de tênis e coloca em uma das extremidades da sala de estar. O objeto desliza e ganha velocidade em direção à outra ponta da sala, perto da rua.

Rafael Hupsel/Folha Imagem
Muro do quintal da casa da designer Suzana Coroneos, 43, tem uma rachadura de um dedo de largura devido a obras do Metrô
Muro do quintal da casa da designer Suzana Coroneos, 43, tem uma rachadura de um dedo de largura devido a obras do Metrô

Reportagem da Folha mostra que ao menos 20 casas foram interditadas e outras 280 sofreram algum tipo de dano por conta das obras da futura estação Butantã da linha 4-Amarela do metrô, na zona oeste de São Paulo.

A casa de Nadir é uma das três da rua Alvarenga, no Butantã (zona oeste), que deverá ser interditada. Mas ela ainda não sabe que dia deverá sair. Um apartamento foi alugado pelo Consórcio Via Amarela para a família.

"Meu chão, o fundo da minha casa, está tudo afundando. Minhas paredes parecem fatias de bolo", diz, referindo-se às rachaduras que cortam do teto ao chão. O muro que faz divisa com a casa da direita desabou e quase caiu sobre o carro da vizinha, diz Nadir. Na divisão entre as casas há agora um tapume.

A laje da frente, que dava cobertura ao automóvel da família, foi demolida. "Todo dia que você olha é uma trinca nova. A gente não sabe até quando isso vai permanecer", lamenta.

As rachaduras apareceram no fim de 2007. Em agosto, a família se mudou para um hotel por 20 dias, durante as reformas no piso e na laje. Um mês depois, as rachaduras voltaram, e o chão começou a ceder.

Alguns metros à frente, na rua Alvarenga com a Esperanto, a casa da esquina tem um buraco no chão do quintal. O muro está escorado por madeiras e a piscina apresenta rachaduras de uma ponta a outra. O box do chuveiro estourou, enquanto a dona tomava banho.

Na casa ao lado, da designer Suzana Coroneos, 43, o muro do quintal tem uma rachadura de um dedo de largura. O mesmo problema é visto no quarto, no escritório e no closet. O chão também apresenta fissuras. Ela se mudou para lá há apenas um ano, quando terminou uma reforma que custou R$ 220 mil.

"Você vai fazendo um "scanner" pela casa e acha a cada dia uma nova rachadura", reclama.

O consórcio, segundo ela, tem feito todas as reformas necessárias. Mas o problema é que, meses depois do reparo, a mesma rachadura aparece novamente. "Você liga, vem um engenheiro, tira foto, analisa. Se for necessário, um reparo urgente ele faz. Mas não há nenhum papel que afirme que o Metrô vai deixar a casa como era antes".

Especialista em túneis, o engenheiro Roberto Kochen, ligado ao Instituto de Engenharia, diz que o problema está relacionado ao tipo de solo da região, cuja superfície é formada por uma camada de areia, argila e água, com espessura entre cinco e oito metros.

Esse tipo de solo, diz ele, é comum em áreas próximas às margens dos rios Pinheiros e Tietê e está sujeito a instabilidade em qualquer tipo de construção. Segundo ele, a tendência é que o terreno se estabilize em um prazo que costuma variar de três a cinco meses após a impermeabilização do túnel com uma camada de concreto. Nem o Metrô nem o consórcio, porém, informaram se o procedimento já foi concluído.

 

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