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Cotidiano
16/10/2008 - 22h11

Rapaz que mantém ex-namorada refém vive "fantasia", diz psiquiatra

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CAROLINA FARIAS
da Folha Online
TATIANA SANTIAGO
Colaboração para a Folha Online

Lindemberg Fernandes Alves, 22, que mantém como refém a ex-namorada de 15 anos desde a última segunda-feira (13) em um apartamento em Santo André (Grande São Paulo) vive uma fantasia, de acordo com o psiquiatra forense Guido Palomba. Para o especialista, o mais longo cárcere privado do Estado de São Paulo tem chances iguais de acabar em tragédia ou terminar com a libertação da refém.

"Tudo é possível [de acontecer]. Temos o rapaz, que está comandando o episódio, então ele é o "herói' da história. No psiquismo dele, ela é a 'amada' da história. Ele é o "Dom Quixote' e ela a "Dulcinéia'", afirmou Palomba. "Quando há passionalidade você põe igual a irracionalidade. E quando você põe irracionalidade, tudo pode acontecer."

Alves invadiu o apartamento da adolescente por volta das 13h30 de segunda-feira, inconformado com o fim do namoro de três anos com a garota. O relacionamento terminou há aproximadamente um mês.

"Isto está se arrastando há três dias. Mas o que estão fazendo: estão comendo, dormindo, assistindo televisão, estão ali e se tornaram o centro do mundo, no psiquismo dele. Agora, como conseqüência, tudo pode acontecer, é mundo de fantasia [dele]", disse Palomba.

De acordo com o psiquiatra, em cárceres privados como esse, de motivação passional, não há como separar vítima e seqüestrador. Para Palomba, não há como o caso terminar bem com a adolescente buscando um desfecho e o rapaz outro.

Fernando Donasci/Folha Imagem
Negociadores da polícia se posicionam próximo a prédio onde rapaz mantém a ex-namorada refém em Santo André, na Grande SP
Negociadores da polícia se posicionam próximo a prédio onde rapaz mantém a ex-namorada refém em Santo André, na Grande SP

"É um binômio, não dá para separar um do outro. Ele está com ela, que é tudo o que ele queria, ela dominada. Já conversaram sobre tudo. Podem sair de lá querendo casar, ou, como Romeu e Julieta", analisa o psiquiatra. "Ele libertar ela, não acredito. Não vai ter eu quero assim e eu quero assado. Ou querem a mesma coisa ou nada. O binômio não vai se desfazer. Só depois".

Para Eduardo Ferreira Santos, psiquiatra e psicoterapeuta, Alves pode ter transtorno de personalidade, que usa formas inadequadas para resolver situações de frustração.

"Ele não reage bem às frustrações, tem traços de histeria. O relacionamento amoroso dele parece tumultuado. Ela [a vítima] é uma adolescente, ele também age como um adolescente, apesar de ter 22 anos. É uma situação que a princípio parece como aquelas que terminam em tragédia", afirma Santos.

De acordo com psiquiatra, o ideal seria que o negociador que dialoga com a adolescente e o com Alves tivesse experiência em crise de casais para amenizar a situação.

Amiga

Nesta quinta, outra adolescente que também havia sido rendida e foi libertada na noite de terça-feira (14), voltou ao apartamento para auxiliar nas conversas.

A garota permanece no imóvel com a amiga e com o rapaz, que está armado. A Polícia Militar, responsável pelas negociações, ainda não informou por que decidiu permitir que a adolescente voltasse ao apartamento.

Por volta das 12h45, uma das meninas que está no apartamento jogou pela janela uma mochila, supostamente contendo utensílios onde seriam colocados alimentos. Na quarta (15), por meio de uma corda feita com lençóis, a refém recebeu alimentos.

Também na quarta, Alves conversou rapidamente com a reportagem, por telefone. "Tô preocupado com todo mundo", disse ele sobre sua família.

"Na situação que eu 'tô' não dá para parar e pensar nisso", disse Alves ao ser questionado pela Folha Online sobre o que pretende fazer após libertar a ex-namorada.

 

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