Pai de Eloá corre mais risco foragido do que preso, afirma Polícia Civil de Alagoas
CLAYTON FREITAS
da Folha Online
Acusado de integrar uma espécie de esquadrão da morte que atuava em Alagoas, o ex-cabo da PM Everaldo Santos, pai da garota Eloá Pimentel, corre mais risco se permanecer foragido do que se entregar e for preso. A avaliação é de delegados da Polícia Civil de Alagoas que estiveram nesta quinta-feira em Santo André (Grande São Paulo), onde Eloá foi mantida em cárcere privado pelo ex-namorado e onde o pai dela foi visto pela última vez.
Everaldo é suspeito de integrar a chamada "gangue fardada", grupo acusado de praticar diversos crimes. O ex-cabo da PM é apontado como o "braço armado" do grupo e seria responsável por mortes a mando dos dirigentes da gangue.
"As pessoas são capazes de tudo. A mãe dele [Everaldo] já até deixou sua casa em Alagoas. Solto, ele corre mais risco, pois as pessoas que o contratavam para praticar crimes podem agora querê-lo morto", afirmou o delegado-geral adjunto da Polícia Civil de Alagoas, José Edson de Medeiros Freitas Júnior.
Nesta semana, Everaldo negou participação em crimes. "Sou inocente. Nunca matei ninguém. Nunca, nunca e nunca. Mas sou um arquivo vivo. Por isso quiseram e querem me liquidar", disse ele, tentando justificar a fuga do Nordeste, em 1993, assim que sua prisão preventiva foi decretada.
"Eu estava marcado para morrer"; ouça pai de Eloá
| 16.out.2008/Folha Imagem |
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| Everaldo Pereira dos Santos, pai de Eloá; durante o cárcere privado da filha ele teve crise de hipertensão e foi socorrido |
Carta precatória
Freitas Júnior esteve em Santo André nesta quinta acompanhado da também delegada Luci Mônica Rabelo, diretora de estatística, informática e armas da Polícia Civil de Alagoas. Eles se reuniram com o delegado da SIG (Setor de Investigações Gerais) de Santo André, Marco Aurélio Gonçalves, para tratar da busca ao ex-cabo da PM.
Eles levaram uma carta precatória expedida pela 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas informando sobre a decisão da Justiça de levar Everaldo a júri popular pela morte do delegado da Polícia Civil Ricardo Lessa, assassinado em 1991 por investigar a gangue fardada. Everaldo, segundo o despacho, irá a júri porque efetuou os disparos de metralhadora que mataram Lessa, irmão do ex-governador do Estado.
Ricardo foi morto pois era o responsável pela investigação do assassinato de um homem dentro do Hospital de pronto-socorro de Maceió. Os quatro homens que invadiram o hospital e esfaquearam o rapaz eram integrantes da gangue fardada. Entre eles estava Everaldo, segundo Freitas Júnior.
Carteirinha
Freitas Júnior e Rabelo informam que existem quatro mandados de prisão expedidos contra Everaldo. Eles não detalham quais são os artigos nos quais o pai de Eloá é suspeito, mas informam que os documentos já estão em mãos dos agentes da Polícia Civil de São Paulo, que buscam o ex-cabo da PM de Alagoas.
A chamada gangue fardada praticava crimes diversos --que vão desde ameaça até assassinatos-- com o objetivo de conseguir dinheiro e prestígio, de acordo com Freitas Júnior.
Comandada pelos irmãos Cavalcante, os PMs Manuel (coronel), Adelmo (major) e Marcos (soldado), a chamada gangue fardada reunia cerca de 30 agentes das polícias Civil e Militar. Eles atuavam em todo o Estado de Alagoas praticando crimes vestindo a farda --daí o nome do grupo-- e utilizavam capuzes para esconder o rosto.
Segundo Freiras Júnior, os integrantes da gangue recebiam uma carteirinha com a inscrição "Amigo do Cavalcante". "Quando eles chegavam em um restaurante, todos saíam. Eles apresentavam as carteirinhas em blitze e não eram pegos mesmo se estivessem cometendo irregularidades. Poderiam até matar que nada acontecia. É como se fosse o grupo do Lampião", afirma o delegado-geral adjunto da Polícia Civil de Alagoas.
Manuel e Marcos estão presos. A Polícia Civil de Alagoas afirma que o grupo foi desarticulado e, a partir do depoimento de Manuel, é que eles tiveram a convicção da participação de Everaldo em diversos crimes.
Delação
Freitas Júnior afirmou que procurou a Justiça de Alagoas para negociar a possibilidade de oferecer a Everaldo, caso ele se entregue, o benefício da delação premiada (quando a pessoa que coopera com a investigação tem a pena reduzida). A importância da captura do ex-cabo da PM está no fato de ele possuir várias informações a respeito de diversos crimes, de acordo com o delegado.
Com isso, a Polícia Civil de Alagoas espera elucidar vários casos até hoje sem solução e também prender os envolvidos.
A delação premiada, segundo Freitas Júnior, dependerá do que Everaldo falar. A mulher e filhos do ex-cabo da PM poderão ser integrados e mudar de identidade, endereço e viver sob a tutela do Estado de Alagoas.
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