Jovem diz ter sido queimado com ácido e torturado por militares no Rio
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Um adolescente relatou à Polícia Civil que foi torturado e queimado com ácido por militares no Rio. A suposta agressão aconteceu após ele pular o muro de um quartel do Exército na zona oeste da cidade, na quarta-feira (5), de acordo com a 33ª DP (Realengo). A Polícia Federal e o próprio Exército começaram a investigar o caso nesta quinta-feira.
O adolescente, de 16 anos, sofreu queimaduras de 1ª e 2ª grau nos braços, pernas e rosto e corre o risco de perder a visão, segundo o hospital onde está internado. O delegado Felipe Iuri, que registrou o caso, disse que o jovem contou ainda ter sido submetido a choques e agressões.
De acordo com o delegado, o jovem contou que pulou o muro do terreno, que pertence ao 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, em Realengo (zona oeste), com um amigo para fumar maconha. Ao ser descoberto pelos militares, o amigo conseguiu fugir, mas o adolescente foi pego por soldados.
Os militares bateram e jogaram ácido em partes do corpo do rapaz, que também levou choques, afirmou o jovem à polícia. "Nunca senti tanta dor na minha vida", disse o adolescente, sem se identificar. "O tenente falou para eu correr senão eles iam me matar".
O delegado Felipe Iuri afirmou ter visto marcas de queimadura e hematomas no corpo do garoto quando ele foi à delegacia. "Ele estava muito ferido, com muitas queimaduras".
Segundo Iuri, alguns dos militares suspeitos de terem cometido a agressão foram identificados, mas o caso por envolver o Exército, foi enviado à PF (Polícia Federal). A PF informou que vai ouvir os militares que estavam no quartel no dia da agressão. O Comando Militar do Leste afirma que a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada também instaurou inquérito nesta quinta-feira para investigar o caso.
O adolescente foi levado pela família para o hospital estadual Albert Schwaitzer, em Realengo (zona oeste). De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, ele sofreu queimaduras de primeiro e segundo grau em várias partes do corpo e corre o risco de ficar cego. O quadro de saúde é estável, mas ele permanece internado nesta quinta-feira.
Providência
Em junho deste ano, três jovens do morro da Providência (centro do Rio) morreram após serem entregues por militares a traficantes de uma facção criminosa rival à da Providência. Eles haviam sido detidos por desacato no morro pelo Exército, que ocupava a Providência para fazer a segurança das obras do projeto Cimento Social, do governo federal.
O caso abriu uma crise no Exército no Rio, que acabou se retirando do morro por ordem da Justiça. As obras também foram canceladas. Onze militares estão presos e ainda serão julgados pelo caso. À Justiça, eles confessaram o crime mas disseram que queriam apenas dar um susto nos jovens.

