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Cotidiano
10/11/2008 - 08h30

Moradores da zona sul temem desocupações para ampliação de Congonhas

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FERNANDA PEREIRA
Colaboração para a Folha Online

Moradores da zona sul de São Paulo se dizem preocupados com a possível desapropriação na região devido às obras de ampliação das pistas do aeroporto de Congonhas. Na semana passada, o governador José Serra (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) se reuniram com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para discutir as obras.

O representante comercial Kléber Aparecido Borges Bergamasco, 37, que mora no bairro Vila Parque Jabaquara desde criança, afirma estar indignado com a possibilidade de ter que deixar a casa que comprou recentemente e foi reformada há menos de dois anos. "Eu morei aqui a vida inteira. Nós gastamos muito dinheiro e tempo para conseguir montar um lar com a cara da nossa família. É um absurdo ter que deixar toda a nossa história e investimento", afirma.

Fernanda Pereira/Folha Online
Kléber e a família na casa comprada há dois anos; moradores temem desapropriação
Kléber e a família na casa comprada há dois anos; moradores temem desapropriação

O morador mostrou à reportagem documento --datado de maio de 2007-- que precisou adquirir com o 4º Comar (Comando Aéreo Regional), da Aeronáutica, para reformar a residência --que fica a 475 metros da pista do aeroporto. "Por que autorizaram se iam desapropriar em seguida?" A autorização foi publicada no "Diário Oficial" em 25 de outubro de 2007.

Da sacada da residência, a mulher de Bergamasco, Vanessa de Castro Bergamasco, 32, aponta a casa em que a família já morou, além de indicar a residência de familiares e amigos. "A nossa história de vida foi toda aqui no bairro", afirma.

Luis Carlos Ferri, 40, amigo de infância de Bergamasco, também diz ser contra a possível desapropriação. Para ele, sair do bairro onde mora há 30 anos é perder laços sociais. "Estou aqui desde criança e conquistei pessoas e relacionamentos que dificilmente vou conseguir refazer em outro lugar".

Fernanda Pereira/Folha Online
Kléber mostra documentos exigidos para reformar casa próxima a Congonhas
Kléber mostra documentos exigidos para reformar casa próxima a Congonhas

Outro morador da região, Mário Machado de Neto, 68, se preocupa com a possibilidade de ter desapropriado não só a casa onde mora há 18 anos, mas também sua tapeçaria, que funciona na garagem da residência. "Perder minha casa é perder meu sustento, como vou viver assim?", questiona Neto.

Falta de informação

A principal reclamação apontada pelos moradores do bairro é a falta de informação da prefeitura em relação à possível desapropriação. Segundo Bergamasco, a primeira vez que ouviu sobre a possibilidade foi pelos jornais em 2007. Ele afirma que nunca recebeu nenhum tipo de aviso ou foi consultado sobre o assunto.

Na semana passada, o prefeito disse que a ampliação do terminal deverá ter um custo aproximado de cerca de R$ 400 milhões com desapropriações. Na ocasião, Kassab afirmou que a prefeitura não deve encontrar resistência porque a maioria dos moradores quer se mudar da região por questões de segurança. "A região está a favor do projeto, 80% da população está disposta a sair de lá", disse.

Bergamasco contestou a declaração. "Como o prefeito pode afirmar uma coisa dessa se ninguém nunca veio falar sobre o assunto com a população?. Manda ele vir perguntar pra mim, porque eu não quero".

A mesma reclamação é feita por outros moradores. A dona-de-casa Maria de Lourdes Borges, 57, que mora no Jardim Oriental há 34 anos, afirma já ter ouvido muitos boatos, mas nunca recebeu nenhum aviso oficial sobre o assunto.

A prefeitura de São Paulo foi procurada pela Folha Online, mas até a publicação deste texto não havia se pronunciado sobre o projeto e as desapropriações. Na última sexta (7), o ministro Jobim afirmou que a data para início para as desapropriações ainda não foi confirmada. "Toda a desapropriação cria problemas, isso é o ônus do desenvolvimento. Se precisamos otimizar a segurança, é evidente que há sempre um sacrifício de alguns setores".

Medo de novos acidentes

Quando questionados sobre o risco de novos acidentes nas proximidades do aeroporto de Congonhas, os moradores mostram preocupação, mas dizem não acreditar que a saída do local seja a solução. Segundo Bergamasco, a concretização do projeto do governo pode levar a um aumento do raio de insegurança.

A mesma opinião é compartilhada por Neto, que afirmou já ter presenciado cinco acidentes aéreos na região.

Vanessa defende como solução definitiva para a insegurança o local a retirada do aeroporto de Congonhas da cidade. Para ela, essa seria a forma ideal de evitar acidentes como o que aconteceu em julho de 2007 quando um avião da TAM ultrapassou o limite da pista de pouso do aeroporto e bateu em um prédio também da TAM na avenida Washington Luís, matando 199 pessoas.

 

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