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Cotidiano
09/11/2008 - 09h26

Bicicletário do Horto Florestal fica espremido entre ônibus e ambulante

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JULIANA CALDERARI
colaboração para a Folha

Enquanto ciclovias e bicicletários são construídos em São Paulo em uma tentativa de incentivar o uso das bicicletas, na zona norte, o parque estadual Albert Löefgren, o Horto Florestal, parece ir na contramão.

Desde o mês passado, o pequeno bicicletário antes localizado dentro do parque, próximo à portaria principal, na rua do Horto, foi transferido para o lado de fora --em uma calçada.

Usuários que chegam com suas bicicletas disputam um lugar com os banquinhos de uma Kombi que vende lanches. Para chegar ao bicicletário, é necessário passar pelo vão deixado entre o ambulante e os ônibus estacionados, pois lá também fica o ponto final da linha que vai até a Casa Verde.

"Não há comentários para o que fizeram. É capaz de vir alguém e ainda pedir dinheiro para "guardar" as bicicletas", ironiza Antonio Luis Guilherme, 38. A prática já é bem conhecida pelos motoristas de automóveis que tentam uma vaga para estacionar perto de uma das entradas do parque.

"Os ônibus estão certos. As bicicletas é que estão no lugar errado e ficaram encobertas. Uma hora elas vão começar a sumir", afirma Rubens Gomes Miranda, 43, freqüentador do Horto Florestal há 12 anos. No entanto, com a justificativa de que furtos já aconteciam do lado de dentro, alguns usuários dizem não se incomodar com a mudança, como Gabriel Camilo, 22. "Para mim não faz diferença. Soube que levaram o banco de uma [bicicleta] outro dia, quando [o bicicletário] ainda era lá dentro", diz.

Como tantos outros, Antonio, Rubens e Gabriel usam suas bicicletas apenas como meio de transporte até o Horto Florestal, já que é proibido pedalar lá dentro. Como alternativa para os ciclistas, uma ciclovia foi criada em 1998 em uma área de 40 hectares dentro do arboreto da Vila Amália.

Criado em 1925 para desenvolver pesquisas de silvicultura, o arboreto se estende por uma área equivalente a 40 campos de futebol. No entanto, no lugar de ciclistas, o que se vê são usuários de drogas.

"O patrulhamento é de uma empresa privada, e não é suficiente. De três em três horas passa um guarda numa moto e não faz nada", conta um morador da região que preferiu não se identificar.

Segundo ele, é no meio do parque, onde fica a bica d'água, que o tráfico e o consumo de drogas acontecem à luz do dia sem nenhuma interferência.

Intimidados, freqüentadores como a professora Rosângela Arreguy, 53, costumam correr ou fazer caminhadas no percurso de um quilômetro que beira a av. Parada Pinto, mas não vão ao resto do arboreto.

"Os "nóias" [viciados em drogas] roubam bolsas, relógios e bicicletas, principalmente das mulheres. Depois das 15h é impossível andar por aqui", diz o funcionário público André Batista da Silva, 40.

Sentado em um tronco, ele parecia estar no lugar ideal para fugir do sol forte. No entanto, em vez de apreciar a paisagem, André tentava usar um galho para cobrir com folhas os restos de comida e fezes no local, apelidado de "banheiro". Papel higiênico no chão e uma cueca suja pendurada em um galho completavam o cenário.

Do lado oposto, a cerca de cinco metros, o cheiro era outro. "Ali é o depósito de carniça", apontou André para onde estavam sacos de lixo e pedaços de móveis e tijolos. O local é usado por moradores da região como depósito de entulho e de animais mortos. O terreno não pertence ao Horto Florestal. Entretanto, não há muro ou cerca o separando.

Outro lado

Segundo Luis Alberto Bucci, diretor técnico da Divisão de Reservas e Parques Estaduais, o parque estadual Albert Löefgren conta com a segurança da portaria e uma ronda armada fornecida pela empresa Capital Segurança.

O diretor acrescenta que há dois vigias a cada turno, por 24 horas, e que está prevista a instalação de bases de fiscalização com o aumento do efetivo de vigilância.

"A Polícia Militar tem efetuado rondas periódicas e abordagens com o objetivo de identificar e prender os possíveis traficantes", diz.

Sobre a ausência de muros em alguns pontos do perímetro do parque, Bucci alega que algumas das passagens são mantidas abertas a pedido dos moradores da região. Em outras, os arames farpados são cortados. A extensão da área do Horto Florestal, que soma 174 hectares, também dificulta a fiscalização, afirma Bucci.

Quanto às balas de chumbo perdidas, o diretor técnico diz que a área pública foi concedida ao Clube Paulistano de Tiro há aproximadamente 60 anos. Sua permanência não tem a aprovação da atual administração do parque e o assunto está sendo tratado nas esferas do Executivo e do Judiciário. "Tem sido uma desgastante demanda para a administração pública, pois trata-se de uma atividade inconcebível dentro de uma unidade de conservação", diz ele.

Por outro lado, Adilson Rodrigues, administrador do clube, afirma que os cartuchos de chumbo disparados pelos atiradores caem dentro dos limites do clube. Durante a visita da reportagem, porém, havia balas fora da área cercada. Rodrigues acrescenta que a Cetesb realiza análises para se certificar de que o metal não causa danos ao ambiente. "Monitoramos o solo periodicamente."

Segundo Bucci, será construída uma nova portaria com a mudança do bicicletário. Nela ficará a entrada oficial do Instituto Florestal. A atual funciona junto à entrada da UBS (Unidade Básica de Saúde) Horto Florestal. "É inadequada e perigosa", diz o diretor. O bicicletário deverá ser mantido na calçada. "Há outros problemas mais importantes a serem resolvidos", afirma Bucci.

A assessoria de imprensa da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, no entanto, afirmou que a decisão sobre o bicicletário não é definitiva. Mas ambos concordam que as bicicletas não são de responsabilidade do Horto.

 

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