No PR, especialista diz que mídia colabora para casos de violência contra crianças
DIMITRI DO VALLE
da Agência Folha, em Curitiba
A sociedade ainda trata crianças como se fossem uma "propriedade", em que tudo é permitido, inclusive bater sob alegação de "educar", segundo a psicóloga Lídia Weber, 50, da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Nas últimas duas semanas, quatro meninas de três a nove anos foram mortas no Paraná.
Em um dos casos, em que uma garota violentada foi encontrada morta dentro de uma mala em Curitiba, a polícia ainda não tem pistas de possíveis autores.
A psicóloga, que já escreveu dez livros sobre educação familiar, adoção e abandono de crianças, diz que mudar o conceito de "ser inferior" atribuído às crianças "leva décadas". "Desde a Antigüidade sempre se viu a criança como um ser inferior, que dá problemas e uma espécie de propriedade", diz.
Weber também afirma que, ao priorizar a cobertura de casos violentos sem discutir as causas do problema, a mídia pode estimular o surgimento de novas ocorrências de violência contra crianças, como as que aconteceram no Paraná nas últimas semanas.
"Quando você glorifica um comportamento anti-social ou o coloca mais em evidência do que o processo educativo, isso é incentivar", diz.
Segundo a psicóloga, ao crescer, a pessoa que foi submetida a essa forma de violência pode levar o padrão para seus semelhantes, abrindo a porta para o aparecimento de maníacos e pedófilos. "Em 99% dos casos, pessoas assim tiveram problemas com agressão e violência na infância", diz ela.
Para Weber, enquanto a sociedade não mudar a visão de criança como "ser inferior", em um mundo complexo e perigoso, os pais devem adotar medidas que reduzam fatores de risco, como monitorar os filhos para saber com quem saem, onde vão e qual o horário de retorno programado. "Acabou-se aquele tempo em que a minha mãe apenas dizia: Volte quando escurecer."
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