Viúva de caminhoneiro soterrado em Florianópolis diz ter perdido perspectiva de vida
HEDA WENZEL
Colaboração para a Folha Online, em Santa Catarina
"Não tenho mais perspectiva de vida". É assim que Tatiana Weber de Oliveira, 32, resume o estado em que ficou após perder o marido, Ricardo Dias de Oliveira, 34, soterrado após um grande deslizamento de terra no km 14 da SC-401, em Florianópolis (SC). O acidente aconteceu por volta das 18h30 do último domingo (23).
Ricardo era proprietário de um caminhão e há duas semanas trabalhava sem descanso transportando, principalmente, trigo. Segundo Tatiana, na sexta-feira anterior à tragédia, ele havia saído de casa às 6h e só retornou às 22h.
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"No sábado, ele quis deixar o caminhão em ordem para a viagem e o levou ao posto, pintou as rodas e arrumou o pára-choque", conta a viúva. O caminhoneiro iria levar uma mudança de Carazinho (RS), cidade onde morava com a família, para a praia do Santinho, em Florianópolis.
Às 5h de domingo, Ricardo começou sua viagem. Dez horas depois, ele ligou para Tatiana à procura do telefone do tio Odécio Gonçalves Dias, morador da praia dos Ingleses. "Meu marido foi procurar o tio em seu trabalho e, como ele não estava, resolveu me telefonar. Talvez, se tivesse encontrado Odécio, ele tivesse ido embora apenas no dia seguinte e estivesse aqui conosco hoje", afirma. A dona-de-casa disse não ter imaginado que Ricardo corria qualquer perigo.
A polícia de Florianópolis avisou Tatiana sobre o acidente aproximadamente às 17h da tarde da segunda-feira (24). Na cidade, ela foi recebida por policiais militares.
"Um sargento chamado Ismael me esperava e foi muito prestativo. Os outros se chamavam Neto e Mauro e comandavam as buscas no local. Os dois me garantiram que encontrar Ricardo era a prioridade", diz.
O corpo do caminhoneiro foi localizado por volta das 14h de terça-feira (25). De acordo com informações da prefeitura, o banco de um Omega também foi encontrado próximo ao corpo de Oliveira, aumentando a suspeita da existência de outras vítimas no local.
Vítima
"Fico assistindo na televisão, e as pessoas dizerem que perderam tudo. Eu perdi tudo. Elas não sabem o que é perder a pessoa que se ama. Eu amava muito o meu marido", diz.
Ela conta que este ano o casal pretendia comprar a casa própria e construir uma piscina para os filhos Gabriel, 8, e Francieli, 3.
As crianças estão abaladas. Gabriel pediu para dormir no quarto da mãe, mas quis um colchão no chão para ficar com o pai. "Ele me disse para cobrir bem ele e Ricardo", diz.
Ela explicou para a filha que o pai tinha "virado estrela e ido para perto de Jesus". A menina então mandou um recado pedindo que o pai "roubasse a chave de Jesus" e voltasse para casa porque estava com saudades.
"Imagina ouvir isso de uma criança de apenas três anos", diz Tatiana. "Às vezes vou chorar no banheiro", afirma.
Ajuda da prefeitura
Quando chegou a Florianópolis, Tatiana tinha R$ 200 e a quantia encontrada junto ao corpo de seu marido. Ela estava preocupada em como seria feito o translado até Carazinho (RS). Ao consultar seu tio Odécio, ela soube que a Prefeitura de Florianópolis arcaria com as despesas do transporte do corpo, deixando um carro à disposição da família, e também providenciaram um caixão para a vítima.
Segundo a prefeitura, os trabalhos para desobstrução da via foram intensificados a pedido do prefeito Dário Berger (PMDB). A pista é o principal acesso as praias do Norte da Ilha de Santa Catarina. Mais de cem metros da estrada foram cobertos por pedras e terra que rolaram do morro. A previsão é de que os trabalhos sejam totalmente concluídos em 20 dias.
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