André Albuquerque, da Terra Nova, é eleito Empreendedor Social 2008
da Folha de S.Paulo
Desde pequeno, o advogado André Luis Cavalcanti de Albuquerque, 42, sonhava em provocar um grande impacto. E foi sob o impacto de fortes aplausos que, na noite desta quinta-feira, se tornou o Empreendedor Social 2008.
Mediador de conflitos por natureza, André acredita que o ambiente equilibrado energeticamente traz harmonia e prosperidade. Mais uma vez, comprovou sua tese, diante de uma platéia com cerca de 200 convidados, entre representantes do terceiro setor, empresários, acadêmicos, políticos e artistas, ao receber o prêmio no Masp (Museu de Arte de São Paulo).
| Renato Stockler/Na Lata |
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| O advogado André Luis Cavalcanti de Albuquerque é fundador da Terra Nova |
O advogado, que concorreu com outros 344 candidatos, é fundador da Terra Nova, primeira empresa de cunho social do país especializada em regularização fundiária sustentável. É a primeira vez no Brasil que o vencedor do concurso lidera uma empresa social --que tem fins lucrativos, mas cujo resultado é aplicado em grande parte no social, ao contrário, por exemplo, de iniciativas de responsabilidade social.
"Sou grato a Deus. Meu trabalho é a expressão da minha vida. Minha alegria é muito grande", comemorou André, logo após a cerimônia de premiação, realizada pela Folha de S.Paulo em parceria com a Fundação Schwab, da Suíça.
Criada em 2001 em Curitiba, a Terra Nova desenvolveu metodologia para mediar conflitos entre proprietários e moradores em áreas de ocupação irregular consolidadas, fazendo a ligação entre governo, titulares e ocupantes. Por meio desse método, todos ganham: o ocupante conquista o título de propriedade e todas as melhorias decorrente disso; o possuidor legal do imóvel recebe o valor por um bem que já havia perdido na prática; e o governo deixa de gastar com o burocrático processo de negociação fundiária e pode passar investir na infra-estrutura (saneamento básico, energia elétrica, linhas de transporte etc.) do bairro legalizado, diminuindo índices de criminalidade e melhorando a qualidade de vida das pessoas.
Com essa sistemática, a empresa social de André já beneficiou mais de 30 mil famílias em cinco Estados (PR, SP, RJ, MT e RO) e no DF.
"O conceito de rentabilidade privada e social não são excludentes. Pode haver projetos em que a rentabilidade social é maior do que a privada, como é o caso do vencedor", ressaltou o diretor da reunião latino-americana do Fórum Econômico Mundial, Emilio Lozoya, 33, representante da Fundação Schwab no evento.
Outra inovação da Terra Nova é sua participação no primeiro projeto de reassentamento integral de famílias em grandes obras. A experiência inicial se dá com 60 grupos de ribeirinhos atingidos pelas obras da usina hidrelétrica de Santo Antônio, em Porto Velho.
| Renato Stockler/Na Lata |
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| Uma das benfeitorias feita após a mediação da Terra Nova |
Com a conquista, dedicada a seu filho que vai nascer em abril, André contará com visibilidade na mídia, troca de conhecimento e contatos com patrocinadores nacionais e internacionais. Participará, com as despesas pagas, da Reunião Geral para a América Latina do Fórum Econômico Mundial, no Rio de Janeiro, e poderá ser convidado para a próxima edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Nesses eventos, terá acesso a CEOs (principais executivos) de empresas multinacionais, presidentes e governantes de países e a outros membros da rede mundial de "Empreendedores Sociais de Destaque" da Fundação Schwab.
Também contará com benefícios especiais, como serviços de consultorias especializadas e bolsas de estudo totais ou parciais em instituições de primeira linha, como Harvard Business School, nos Estados Unidos, e Insead, na França.
"Imagino que o prêmio vai fortalecer o projeto e fazer com que eu consiga mais parceiros. Quero mudar o mundo pela paz", concluiu o advogado paranaense.
Segundo e terceiro colocados
Neste ano, alguns dos benefícios --como a participação no fórum latino-americano-- foram estendidos ao segundo e ao terceiro colocados.
Mentor do Banco Palmas, primeiro banco comunitário de finanças solidárias do Brasil, de 1998, o teólogo e educador popular João Joaquim de Melo Neto Segundo, 46, ficou com o segundo lugar do prêmio. O Palmas fomenta a geração de trabalho e renda por meio de instrumentos como crédito para produção e consumo com garantias baseadas nas relações de vizinhança, suporte à formação de empresas comunitárias, qualificação profissional e uso de moeda social com circulação local. Seu objetivo é gerar um circuito econômico gerido pela própria comunidade.
Criado em 2003 por Joaquim como um desdobramento do Banco Palmas e com a finalidade de gerir e certificar os bancos comunitários replicados, o Instituto Palmas, de Fortaleza, já atendeu cerca de 200 mil pessoas em 33 municípios de seis Estados (CE, PI, MA, BA, ES e MS), além da Venezuela.
A psicóloga Raquel da Silva Barros, 42, criadora da Associação Lua Nova, de Sorocaba (SP), ficou em terceiro lugar. A entidade acolhe mulheres em situação de risco social com o objetivo de fortalecer o relacionamento entre mãe e filho, sempre com geração de renda. A ONG de Raquel oferece moradia, alimentação, atendimentos psicológico e pedagógico, além de trabalho e escola para todas as residentes.
Nos centros de negócios, as "meninas da lua" constroem bonecas, brindes, bijuterias, biscoitos e até casas em regime de mutirão. Sua metodologia já é política pública em Sorocaba e em mais oito cidades do país (Belém, Brasília, Curitiba, Foz do Iguaçu, Fortaleza, Goiânia, Maceió e Manaus), sendo que mais de 3.500 pessoas já foram beneficiadas, desde a sua fundação, em 2000.
Além de André Albuquerque, Joaquim de Melo e Raquel Barros, os finalistas certificados foram Rodrigo de Méllo Brito, 26 da Aliança Empreendedora; Valdir Cimino, 47, da Associação Viva e Deixe Viver (SP); e Yvonne de Bezerra Mello, 61, do Projeto Uerê (RJ).
O prêmio
A versão brasileira do concurso --que é promovido em 22 países-- recebeu recorde mundial de inscrições em sua primeira fase.
Na segunda etapa, 20 candidatos tiveram documentação avaliada pelos jornalistas Cássio Aoqui, Marlene Peret e Patrícia Trudes da Veiga, da organização do prêmio, e pela empresa de verificação, testes e certificação SGS, apoiadora do concurso.
Na terceira fase, oito empreendedores sociais foram visitados por um período de até cinco dias. Seus documentos financeiros foram analisados pelo professor de finanças Roy Martelanc, da FIA-USP (Fundação Instituto de Administração). Desse grupo, seis passaram pela avaliação dos jurados.
Em todas as fases, os critérios de seleção mais importantes foram inovação, sustentabilidade e impacto social direto. Outros quesitos levados em conta foram alcance e abrangência e efeito multiplicador.
O empreendedor social do ano, o segundo e o terceiro colocados foram eleitos pelo júri formado por Amyra El Khalili, fundadora do Projeto Bece (Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais); Dan Baron, presidente do Idea (Associação Internacional de Drama-Educação); Maria Cristina Frias, colunista da Folha; Maria da Glória Gohn, socióloga especialista em planejamento urbano e em planificação da educação; Mirjam Schoening, diretora-executiva da Fundação Schwab; Raí Souza Vieira de Oliveira, idealizador da Fundação Gol de Letra; e Roberto Schaeffer, engenheiro especialista em linhas de base e monitoramento das Nações Unidas.
O concurso no mundo
Realizado pela quarta vez no Brasil, o prêmio Empreendedor Social busca identificar líderes de organizações --com ou sem fins lucrativos-- que desenvolvam produtos ou serviços voltados à melhoria de comunidades marginalizadas.
A rede mundial formada pelos 140 empreendedores sociais da Fundação Schwab abrange 41 países. O mais novo integrante do seleto grupo, André Albuquerque, junta-se agora a outros 11 brasileiros, 3 deles eleitos pelo Prêmio Empreendedor Social: Tião Rocha (2007), do CPCD; Fábio Bibancos (2006), da Turma do Bem; e Eugenio Scannavino Netto (2005), do Projeto Saúde e Alegria.
No Brasil, a Folha é parceira exclusiva da Fundação Schwab para a realização do prêmio, que tem como apoiadores o Centro de Estudos do Terceiro Setor da Fundação Getulio Vargas, o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, a SGS e o portal UOL.
Informações: www.uol.com.br/empreendedorsocial



