Ação em catástrofe nos EUA foi mais eficaz que em SC
IURI DANTAS
enviado especial da Folha de S.Paulo a Blumenau
Dois países, duas catástrofes diferentes, mas semelhantes: milhares de desabrigados, quilômetros de inundação, necrotérios lotados e prejuízos incalculáveis.
Mas a catástrofe das chuvas em Santa Catarina, que ganha a história como uma tragédia sem nome, supera a passagem do furacão Katrina pelos Estados Unidos há três anos: se lá o número de mortes poderia ser maior, não fossem os alertas de evacuação, por aqui a calamidade cobraria menos vidas, se houvesse prevenção efetiva.
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A dor de parentes e amigos, não há dúvida, é a mesma. Já as feridas abertas por forças da natureza são bastante diferentes em cada um dos países.
Em números, o furacão Katrina arrebatou a vida de 1.836 pessoas, dado bem superior às 110 mortes causadas pelas chuvas em Santa Catarina conhecidas até este sábado (29).
Uma comparação que não faz sentido para a catarinense Alda Torres, 43, mãe de Diego, 22, e Michele, 24, soterrados na casa em que viviam. "Perdi o chão, não tenho perspectiva de nada. Não sei o que vai acontecer comigo quando acordar deste pesadelo", afirmou.
Em setembro de 2005, a reportagem percorreu Nova Orleans, refez o caminho do furacão Katrina e pôde ver que a região retrocedeu um século: não havia água encanada, energia elétrica e linhas de telefonia.
Em Santa Catarina, o problema foi maior. Baixadas as águas das chuvas, é possível verificar que em cem anos muitos problemas no Brasil continuam os mesmos: não há fiscalização nas encostas, a ocupação é desordenada nos vales, áreas sob risco constante abrigam milhares de pessoas.
Na manhã do dia 23 de novembro, Salvelina Peixoto, 54, em cadeira de rodas, uma perna amputada por causa de úlcera, viveu a mesma calamidade de 25 anos atrás. Perdeu tudo nas enchentes de 1983 e agora abandonou a nova casa sob o mesmo risco de perder a vida.
"Ninguém dormiu de sábado para domingo. Toda hora vinha barulho de terra deslizando, explosão, poste caindo. A enxurrada chegou a balançar a casa, por isso decidimos sair. Todo mundo foi, menos eu. Se não fossem os bombeiros não estaria aqui", contou, ao lado do marido e da filha em um abrigo.
A tragédia no Brasil possui apenas data.
Ajuda
A imagem de milhares de desabrigados refugiados no estádio Superdome, em Nova Orleans, reclamando comida, água e segurança marcou a passagem do furacão pela cidade do jazz norte-americana. No Vale do Itajaí, as imagens são diferentes: lama e terra cobrindo casas de vítimas ainda anônimas.
Os quatro dias de demora para a ajuda chegar ao centro de Nova Orleans expuseram o descaso de autoridades de Washington com pessoas pobres no sul do país. Quando as águas começaram a baixar em Blumenau, a ferida foi outra: o improviso da emergência.
A cidade catarinense, que recebe anualmente milhares de turistas na Oktoberfest, não possui hospital público, somente três filantrópicos mantidos por fundações religiosas --Santo Antônio, Santa Isabel e Santa Catarina. Somente o primeiro atende pelo SUS (Sistema Único de Saúde), que responde por 87% dos pacientes.
Mesmo este hospital não viu filas. Os 1.300 flagelados atendidos desde domingo passado chegavam em ambulâncias, transportados dos escombros por helicópteros e ambulâncias. "Lamentavelmente, essa ocupação desordenada acontece no país inteiro, as pessoas chegam, vão invadindo e depois dizem que não têm para onde ir", reclamou o diretor do Santa Catarina, Franklin Bloedorn.
Solidariedade
Lá como aqui a tragédia faz nascer solidariedade de muitos. Em 2005, a texana Coleen Eusterman gastou US$ 500 em fraldas, comida de bebê e outros artigos. "Pensamos em abrigar uma família, mas precisamos nos organizar. Por enquanto, fazemos doações e buscamos empregos", disse à reportagem da Folha à época.
Em Blumenau, Marcelo Gruetztmachir, 33, disparou 112 mil e-mails para os clientes de sua operadora de turismo pedindo doações. Depois, passou o restante da semana levando comida, colchões, brinquedos, roupas e o que coubesse em sua van para a Vila Germânica, onde acontece a Oktoberfest. "Graças a Deus ninguém na minha família sofreu nada, é quase obrigação ajudar essas pessoas", disse, emocionado.
A passagem do Katrina e as chuvas de Santa Catarina ensinam lições. Que os responsáveis, aqui, consigam aprender como os de lá.
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