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Cotidiano
24/12/2008 - 08h46

Anac notifica a Gol e ameaça cancelar vôos da empresa

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RICARDO SANGIOVANNI
da Folha de S.Paulo
LARISSA GUIMARÃES
da Folha de S.Paulo, em Brasília
FÁBIO AMATO
da Agência Folha

A Anac (Agência Nacional da Aviação Civil) notificou ontem a Gol a regularizar o atendimento aos passageiros, após o quarto dia seguido em que os vôos da empresa tiveram atrasos acima da média nacional.

A determinação é que a empresa aumente os postos de check-in nos aeroportos de Cumbica (Guarulhos), do Galeão (Rio) e de Brasília.

Caso os atrasos persistam, o órgão ameaça cortar vôos da Gol, que também controla a Varig. A decisão será tomada em uma reunião com a diretoria da companhia, convocada pela agência para a sexta-feira.

A Folha apurou que o governo concluiu que os problemas nos aeroportos são conseqüência da deficiência da Gol/Varig em atender os passageiros, e não um caos aéreo. Por essa razão, a ordem é mostrar os problemas da companhia e evitar que se dissemine a idéia de que há uma crise aérea.

Ontem, um dia após o ministro Nelson Jobim (Defesa) ter atribuído os atrasos a um corte de funcionários da Gol, sindicatos de profissionais do setor da aviação civil afirmaram que a Anac, órgão ligado à Defesa, sabia do problema havia pelo menos 18 meses. Os sindicalistas dizem ter alertado sobre os efeitos que os cortes teriam sobre os serviços prestados.

A Fentac (Federação Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil) e o SNA (Sindicato Nacional dos Aeroviários) afirmam ter enviado ofícios à agência quando ela ainda era presidida por Milton Zuanazzi.

"A redução de funcionários de algumas empresas aéreas, (...) era fator de contribuição para o apagão aéreo, naquele momento [segundo semestre de 2007]", diz trecho de ofício enviado ontem ao ministério.

A Anac afirmou que não poderia ter evitado que os problemas ocorressem, já que "nenhum órgão regulador pode multar uma empresa privada por conta de demissões". "O que é passível de multa é uma conseqüência de tais demissões que represente uma infração à legislação", afirma nota.

Mesmo com os atrasos, a agência só havia feito uma notificação às empresas por "preterição de passageiros" --problema causado quando uma aeronave precisa ser substituída por uma menor que a prevista para o vôo. A Anac nega que se trate de overbooking.

Até as 22h de ontem, 52,9% dos 580 vôos da Gol e 46,5% dos 159 vôos da Varig tinham atraso, contra 7,6% dos 711 vôos da TAM, principal concorrente da Gol. A Gol e a Varig respondem por quase 40% dos vôos no Brasil, segundo a Anac.

A Gol atribuiu os atrasos de ontem a resquícios do problema enfrentado no final de semana (leia nesta pág.). Anteontem, a empresa afirmara que os problemas "já estão completamente solucionados".

A Fentac estima em 700 o número de profissionais cortados da Gol e da Varig há pelo menos dois meses --cerca de cem deles trabalhavam em Congonhas (São Paulo), outros 70 em Cumbica (Guarulhos) e mais 70 no Galeão (Rio), segundo a diretora-executiva da entidade, Selma Balbino. A Gol informou que, em outubro, tinha 15.831 funcionários.

"A maioria [dos cortados] era ligada a cargos administrativos, mas também houve corte de investimento da Gol em serviços terceirizados, como a operação de equipamentos [que engloba manobra de aeronaves nos pátios, transporte de malas, e limpeza dos aviões].

A Swissport e a Vit Solo, terceirizadas que prestam serviços para a Gol, negam redução do serviço. A Gol também negou redução de seu quadro.

Procurada ontem, a Gol não detalhou quantos de seus funcionários foram cortados nem que áreas foram afetadas.

A Folha solicitou que o Ministério da Defesa detalhasse os cortes, sem sucesso.
A maior parte dos passageiros abordados ontem à tarde em Cumbica antecipou a chegada ao aeroporto, mas a situação no final da tarde era tranqüila. Foi o caso da dona-de-casa Denize Braga, 33, que embarcaria para Recife às 21h05. "Vim mais cedo esperando um movimento muito maior, mas está tudo muito tranqüilo."

Outro lado

A Gol informou ontem que os atrasos de vôos registrados ontem foram reflexo dos problemas registrados no final de semana e que já estão solucionados. Em nota oficial, a empresa disse que seus vôos operavam "praticamente dentro da normalidade" na tarde de ontem.

A empresa afirmou já ter aceito o convite da Anac para a reunião de sexta-feira, e diz que está disposta a seguir as determinações da agência.

Leia abaixo a nota divulgada no final da tarde de ontem.

"A Gol informa que seus vôos estão operando praticamente dentro da normalidade nesta tarde de terça-feira. De acordo com o último relatório estatístico divulgado pela Infraero, a companhia reduziu para 6,9% o índice de vôos atrasados entre as 17h e as 18h.
Para melhor atender à alta demanda durante as festas, a Gol dobrou o número de aeronaves-reserva neste fim de ano. Passou de dois para quatro Boeing 737-800 nos aeroportos internacionais de Guarulhos, em São Paulo, e Galeão-Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, com a finalidade de manter a regularidade da operação.

A companhia reitera que os problemas pontuais ocorridos nos dias 20 e 21 de dezembro, principais responsáveis pelos atrasos em vôos ao longo de sua malha aérea, já estão completamente solucionados. No entanto, a operação de hoje ainda sofre reflexos das ocorrências do fim de semana. Além disso, condições meteorológicas adversas resultaram no fechamento temporário de aeroportos na segunda-feira, como Juscelino Kubitschek (Brasília) e Congonhas (São Paulo), o que se refletiu nas operações das empresas aéreas.

A Gol informa que seu quadro de colaboradores é condizente com as necessidades operacionais da companhia. Também reafirma que, para este período de fim de ano, reforçou sua força de trabalho em diversas áreas, como aeroportos, coordenação de vôos, tripulações comerciais e técnicas, além de sua central de relacionamento com o cliente CRC.

A Gol volta a reiterar seu compromisso com a segurança, a qualidade e a agilidade dos serviços prestados aos clientes e garante que não medirá esforços para assegurar um fim de ano mais tranqüilo nos aeroportos brasileiros."

 

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