Natal de desabrigados em Santa Catarina teve arroz e churrasco
PAULO SAMPAIO
enviado especial da Folha de S.Paulo, a Ilhota (SC)
Depois de uma tarde escura, com nuvens carregadas no céu, um temporal muito forte desaba perto da noite do dia 24, quando a reportagem estava a caminho de Ilhota para assistir a celebração do Natal na paróquia local, marcada para as 19h, e acompanhar a ceia, que foi servida às 23h.
Em um posto de gasolina, o frentista informa que a balsa que faz a travessia do rio Itajaí-Açu "para os lados do Baú" (a região mais atingida pelas enchentes de Santa Catarina) deixou temporariamente de fazer o percurso para esperar o "aguaceiro" passar. Mas ele não parece assustado com o que vê. Diz que "é normal cair muita água na região". "O problema é cair muita água todo dia, durante dois meses."
| Marlene Bergamo/Folha Imagem |
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| Os irmãos Samuel Wisniewski, 10, e Josue Wisniewski, 4, durante ceia de Natal em Santa Catarina que teve churrasco e arroz |
Logo a chuva passa e a balsa volta a fazer a travessia --de cerca de 200 metros- mais lentamente, por causa da correnteza.
O caminho na estrada de terra depois da travessia está bastante alagado, com poças que ocupam toda a largura da via -mas nada que impeça o tráfego de carros pela região.
No abrigo onde vão realizar a celebração -informam que não é missa--, um grupo de pessoas toca no violão músicas natalinas. O diácono diz algumas palavras para levantar o ânimo dos parentes das vítimas e, por fim, apagam-se as luzes e todos se dirigem ao presépio iluminado para fazer uma oração conjunta. A celebração dura cerca de uma hora.
Em seguida, algumas pessoas vão assistir à novela "A Favorita" na TV de plasma do ginásio, onde se improvisou um imenso dormitório com colchões colocados no chão.
Muitas crianças correm para todos os lados e fazem barulho com os presentes que acabaram de ganhar. O clima não é de tristeza. Com um violão, um senhor canta músicas sertanejas que falam do "amor pela morena que me deixou", num estilo de serenata. Um grupo de homens cuida da churrasqueira.
Por volta das 22h30, Apolônia Richart, 67, uma das mais antigas moradoras da região, e quatro voluntárias que vieram do interior de São Paulo chamam todas as pessoas dizendo que a ceia está servida. Arroz, churrasco, maionese e farofa.
Dona Apolônia está com toda a família --marido, filhos e netos-- no abrigo. Ela conta que, como sua casa estava (antes de desabar) em um terreno um pouco mais alto, todos os vizinhos foram para lá no pior momento da tragédia.
"Tinha umas 60 pessoas. Mas aí começou a desbarrancar tudo, o córrego em frente desapareceu e a estrada ficou interrompida. Tiraram a gente de dentro de casa pelo alto, com uma corda [estilo tirolesa]", conta ela que, "graças a Deus", não perdeu ninguém.
Mas dona Apolônia se emociona é mesmo quando cinco crianças lêem palavras sobre amor, esperança e paz. Jessica, 8, lê na Bíblia um trecho do Evangelho de São Lucas. Em seguida, todos dão as mãos, rezam um pai-nosso e uma ave-maria e sentam à mesa. Uma versão em português de "Happy Xmas", de John Lennon, sai dos alto-falantes.
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