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Cotidiano
15/01/2009 - 23h10

Ciclistas protestam contra violência no trânsito em ato por mulher morta na Paulista

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MARINA NOVAES
da Folha Online

Cerca de 150 pessoas participaram de um ato nesta quinta-feira em homenagem à ciclista Márcia Regina de Andrade Prado, 40, morta ontem (14) após ser atropelada por um ônibus na avenida Paulista, em São Paulo. Durante a homenagem, ciclistas protestaram contra o que chamam de "falta de respeito diário" a que as pessoas que andam de bicicleta são submetidas na cidade.

"Todos sofremos com violência no trânsito. Falta conscientização, falta respeito. Os motoristas nem sequer sabem que devem manter distância de 1,5 metro dos ciclistas nas ruas", disse Sílvio (que preferiu não revelar seu sobrenome), 30, matemático.

Para André Pasqualini, que organiza as "bicicletadas" na cidade, além da falta de conhecimento sobre as leis que protegem os ciclistas, a impunidade pelas mortes no trânsito piora o quadro da violência nas ruas.

Segundo participantes do ato em homenagem à Márcia, às 18h desta sexta-feira, amigos devem realizar um protesto na avenida Paulista --no mesmo local onde a ciclista foi morta. De acordo com Pasqualini, o grupo exigirá ainda a punição do motorista do ônibus.

Fernando Donasci/Folha Imagem
Ciclistas fazem homenagem a mulher que morreu atropelada ontem por um ônibus; família doou corpo para faculdade de SP
Ciclistas fazem homenagem a mulher que morreu atropelada ontem por um ônibus; família doou corpo para faculdade de SP

"Vamos exigir que esse motorista, no mínimo, seja mandado embora. Não que ele seja um bode expiatório [...], mas quem mais mata ciclistas em São Paulo são motoristas de ônibus", disse.

O motorista do ônibus responderá por homicídio culposo --quando não houve intenção de matar. A Folha Online não conseguiu entrar em contato com a SPTrans (empresa que gerencia o transporte coletivo) sobre as declarações do ativista.

De acordo com o último levantamento disponível da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), em 2006, 85 ciclistas morreram no trânsito em São Paulo.

Medo

A aposentada Isolina Delellis, 55, que mora na rua Frei Caneca, próxima ao local do acidente, foi ao ato para protestar contra a violência no trânsito de São Paulo. Ela, que não anda de bicicleta, reclama também da falta de respeito dos motoristas com os pedestres.

"Eu estou aterrorizada. Já vi muitas pessoas sendo atropeladas aqui [na avenida Paulista]. Tenho medo de atravessar a rua. Quando o sinal fica vermelho e a gente está atravessando a rua, ninguém espera", afirmou.

Para Sílvio, apesar do atropelamento, a avenida Paulista não é perigosa. "Aqui é um dos locais mais seguros para andar de bicicleta em São Paulo. Mas falta conscientização, sinalização, campanhas educativas", disse.

O estudante de administração Tinho Costa, 24, que também é ciclista, já foi atropelado e não recebeu socorro do motorista.

Em julho do ano passado ele trafegava de bicicleta pela rua Dona Antonia de Queiróz, a caminho da faculdade, quando um motorista jogou o carro em cima dele após desviar de um buraco. Ele não ficou gravemente ferido.

"Para os motoristas, nós somos invisíveis. O manifesto dos invisíveis quer mostrar que a gente também existe, que somos regulamentados iguais a eles e que é preciso respeito",concluiu.

Doação

A família de Márcia levou flores e velas ao ato em sua homenagem. Hoje, a família da ciclista doou o corpo para a Escola Paulista de Medicina de São Paulo.

"Esse era o desejo da Márcia, ou doar os órgãos para alguém ou para uma faculdade. Como demoraram 'à beça' para retirar o corpo [da avenida], tivemos de doar para a faculdade", disse a aposentada Maria Regina de Andrade, 65, mãe da vítima.

O corpo de Márcia levou quatro horas para ser retirado da avenida Paulista por um carro do IML (Instituto Médico Legal). A mãe da ciclista também enfrentou a demora para liberar o corpo da filha no IML para a doação.

Para a assessoria da SSP (Secretaria de Segurança Pública), a remoção do corpo está dentro dos padrões. A média é de três horas a partir do atendimento das polícias Militar, Civil e Científica até a chegada do IML --cuja unidade central fica a 2 km.

Os manifestantes se reuniram em círculos com as bicicletas e fizeram uma oração. "Pelo menos isso não vai ser em vão. Ela queria uma cidade mais humana, que as pessoas se respeitassem mais", disse a mãe de Márcia.

 

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