Publicidade

Cotidiano
12/03/2009 - 18h32

Para CNBB, excomunhão não vale para mãe de menina estuprada por padrasto

Publicidade

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília

Dirigentes da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) afirmaram nesta quinta-feira que a mãe da menina de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto em Alagoinha (PE) não foi excomungada pela Igreja Católica depois que a criança foi submetida a aborto para interromper a gravidez, no início deste mês. Apesar de o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, ter declarado a excomunhão da mãe, a CNBB entende que ela não deve ser penalizada. O Vaticano também defendeu a excomunhão da mãe da garota.

Em relação aos médicos que realizaram o aborto, também excomungados pelo arcebispo, a CNBB diz não ter elementos para analisar a sua condenação porque considera que somente a "consciência individual" de cada um pode estabelecer eventuais punições pelos seus atos. "Cada um sabe se foi excomungado ou não", disse o secretário-geral da CNBB, dom Dimas Lara Barbosa.

Apesar de o arcebispo não ter excomungado o padrasto responsável pelo estupro da criança, a CNBB considera que ele cometeu um pecado mortal --o que automaticamente lhe afasta da igreja caso o ato tenha sido cometido com o seu consentimento.

Os dirigentes da CNBB interpretaram as excomunhões anunciadas por dom José como um "desabafo" feito em meio à gravidade do caso, mas evitaram censurá-lo publicamente. O anúncio das excomunhões, na avaliação dos dirigentes da CNBB, foi necessário para alertar a população de que o aborto não deve se tornar uma prática comum em todo o país.

"O seu grito e o seu desabafo [de dom José Cardoso] em tom de excomunhão em nenhum momento se dirigiu às vítimas, mas aquelas pessoas que acham que matar seres humanos é uma solução para casos como este. Para quem persegue as criancinhas, vale a pena da excomunhão", disse dom Dimas.

Na opinião do secretário da CNBB, o arcebispo não "excomungou ninguém" porque "apenas lembrou uma norma em que a pessoa se coloca fora da igreja ao cometer um determinado ato". Dom Dimas entende que a mãe da criança não pode ser excomungada porque agiu sob pressão ao autorizar o aborto dos netos. A garota estava grávida de gêmeos. "O medo de perder a própria filha lhe levou a apoiar esse ato", disse.

Pelo Direito Canônico, o aborto está entre os crimes cuja pena é a excomunhão --penalidade máxima prevista Igreja Católica que impede os excomungados de participar de qualquer sacramento, embora eles não estejam banidos de participar de celebrações, como missas.

"Às vezes a excomunhão existe para chamar atenção para a gravidade do ato. O aborto traz consigo essa pena porque está se diluindo a gravidade do aborto até mesmo entre os cristãos. Quem viola isto, se coloca fora da comunidade eclesial", disse o presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha.

Estupro

O presidente da CNBB disse que o estupro não é um crime penalizado com a excomunhão uma vez que toda a população sabe da sua gravidade. "O estupro é uma coisa tão repugnante que a igreja não precisa chamara atenção para ele, está na consciência de todos. O aborto não, por isso a excomunhão não é só para punir, mas para que quem praticou o ato possa perceber a gravidade e buscar sua reconciliação", afirmou dom Geraldo.

Apesar de não estar penalizado com a excomunhão, a CNBB considera que o estuprador ao cometer a violência de forma consciente já se exclui automaticamente da vida litúrgica. Da mesma forma, a entidade considera que médicos e profissionais da saúde que praticam "deliberadamente" o aborto estão automaticamente excomungados da Igreja Católica.

Polêmica

O arcebispo de Olinda e Recife causou polêmica ao afirmar que o suspeito de ter estuprado a menina de 9 anos em Alagoinha não deveria ser excomungado pela Igreja Católica. Grávida de gêmeos, a vítima foi submetida a uma cirurgia para interromper a gravidez no início de março. Após o aborto, médicos que participaram do procedimento e a mãe da menina foram excomungados.

O padrasto, que foi preso sob suspeita de ter estuprado a menina, confessou à polícia que abusava sexualmente dela e da irmã mais velha, de 14 anos, que possui problemas mentais, há cerca de três anos, afirma a polícia. De acordo com dom José, no entanto, para a Igreja Católica, o aborto é um "crime mais grave que o estupro".

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca