Chuvas no Nordeste obrigam a mudanças constantes para fugir da enchente
MATHEUS MAGENTA
da Agência Folha, em Bacabal (MA)
As chuvas que atingem sem trégua o Nordeste desde abril criaram famílias "nômades", obrigadas a se mudar até cinco vezes de lugar para fugir da enchente em municípios como Bacabal (224 km de São Luís). Nos nove Estados do Nordeste, as chuvas já deixaram quase 200 mil pessoas fora de suas casas desde o último mês.
Segundo a Defesa Civil dos Estados, 35 pessoas morreram.
Sergipe, o único Estado da região que ainda não havia sido afetado, registrou duas mortes anteontem devido a um temporal que obrigou cerca de mil pessoas a deixarem suas casas.
Em Bacabal, a cheia do rio Mearim atingiu 21.535 pessoas, deixando 4.295 desabrigados (que foram colocados em abrigos públicos), 5.465 desalojados (transferidos para a casa de amigos e parentes) e ao menos 40% das casas debaixo d'água --ontem, a reportagem presenciou um parto dentro de uma canoa em uma região alagada.
A família da aposentada Antônia Feitosa, 62, já teve de se mudar cinco vezes.
Com dois filhos e uma neta, Antônia já saiu de casa, voltou após uma trégua das chuvas, passou um tempo na casa de parentes e até abandonou um abrigo alagado.
"A vida consegue seguir em frente, mas os móveis ficam para trás, se perdendo a cada mudança", diz a aposentada, que atualmente está alojada em um ginásio poliesportivo com outras 39 famílias desabrigadas.
"A gente fica para lá e para cá, que nem cachorro perdido, sem saber para onde ir, sem conseguir se sentir em casa em nenhum lugar", afirma Antônio Santos, 27, que está no segundo abrigo desde que a enchente o obrigou a sair de casa.
A prefeitura afirma que essa mobilidade prejudica a doação de cestas básicas. "Tem vezes que a gente vai entregar o mantimento e não encontra as pessoas porque elas já se mudaram", diz Roseane Silva, coordenadora da Defesa Civil.
Outras famílias, no entanto, recusam-se a sair de suas casas inundadas, por medo de saques e para evitar as condições precárias dos abrigos.
"Eu não posso deixar que levem minhas coisas e também não quero morar no meio de cachorros, porcos e lixo", afirma o pescador Francisco da Silva, 52, que não saiu da moradia onde vive com a mulher e dois filhos.
Em lanchas, grupos da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros foram até o bairro de Trizidela tentar convencer moradores a deixar as casas inundadas, mas não tiveram sucesso. Os órgãos dizem que não podem obrigá-los a sair das casas, mesmo sob risco de desabamento.
Sergipe
Em Sergipe, a cidade mais afetada foi Estância (68 km de Aracaju), onde o nível do rio Piauitinga subiu cinco metros.
Um homem de 39 anos morreu após ter o carro levado pela correnteza de um rio ao passar por uma ponte. A outra morte ocorreu em Aracaju. Uma menina de oito anos morreu afogada após cair em um córrego.
Colaborou a Agência Folha
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