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Cotidiano
30/05/2009 - 09h04

Moradores contam mortos e perdas após rompimento de barragem no Piauí

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LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de S.Paulo, em Cocal (PI)

Francisco das Chagas Alves dos Santos, 23, desceu ontem do helicóptero que o resgatou do alto de árvore em que se refugiou por quase dois dias. Desceu como um santo supliciado. Tinha o rosto, tronco, pernas, pés, mãos e braços retalhados. E o olhar perdido.

Morador de uma localidade de Cocal, município a 282 km de Teresina, ele foi surpreendido por volta das 16h de quarta-feira quando os 10 milhões de metros cúbicos de água (um quinto da capacidade da obra) represada do rio Pirangi vazaram quase que de forma instantânea após o rompimento da barragem de Algodões 1.

Assim que ouviu o rugido das águas quebrando tudo no caminho, Santos (que, como seus vizinhos, ouvia falar que a barragem podia estourar a qualquer momento) agarrou a filha pequena, de um ano e três meses, e saiu correndo de casa.

No meio da fuga, um turbilhão de água com lama, pedras e casas moídas alcançou-o e jogou-o e à menina em seus braços sobre uma cerca de arame farpado, cujos mourões também tinham sido arrancados.

Pai e filha enrodilhados na cerca, vestidos de espinhos, submergiram muitas vezes enquanto eram arrastados por centenas de metros. Até que bateram em um cajueiro.

A força da correnteza enfiava mais e mais os espinhos nos dois. Na tentativa de se livrar e à menina das farpas, o pai soltou uma das mãos com que a agarrava. A outra não deu conta. Ali, Raissa da Silva Santos sumiu na correnteza.

Ontem, quase dois dias depois, Francisco foi resgatado com a mulher (perna quebrada) e o que sobrou da família. Das oito pessoas que moravam na casa pobre dos agricultores, perdeu a mãe, Francisca. O cunhado Francisco seria enterrado ontem. Uma outra menina, Tais, está entre os desaparecidos na tragédia. Tainara, que também morava com a família, foi enterrada ontem.

Segundo o governo Wellington Dias (PT), a ruptura da barragem de Algodões matou seis pessoas "com nome, atestado de óbito e caixão", conforme explicou o secretário estadual de Segurança, Robert Rios. "Não nos posicionamos a respeito de boatos", disse ele, que não quis comentar declarações dadas poucos minutos antes por uma médica das equipes de buscas, que às 11h, dizia já haver nove mortos confirmados.

Quatro caixões embrulhados em papel pardo, mas cuja forma típica não conseguia esconder para que serviam, foram embarcados logo cedo em um helicóptero com destino ao povoado de Boiba, também à jusante do Pirangi.

Na mesma aeronave enviou-se médico (para o atestado de óbito) e um policial para cuidar dos aspectos legais dos enterros, que deveriam ocorrer no próprio local das mortes. Segundo Rios, era "por respeito a uma tradição e não para esconder os mortos".

Outras equipes, com médicos, paramédicos e assistentes sociais, incluindo uma psicóloga, eram enviadas em um dos quatro helicópteros disponíveis, para resgatar flagelados e prestar os primeiros socorros.

 

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