Polícia de SP mapeia grupos de intolerância e indicia suspeito de integrar gangue neonazista
CAROLINA FARIAS
da Folha Online
Atualizado às 18h37.
A Polícia Civil tenta dar fim a uma escalada de crimes envolvendo grupos de neonazistas e punks desde 2007 na cidade de São Paulo. Nesta terça-feira, munida de mandados de busca e apreensão, a Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância) apreendeu material relacionado a um grupo neonazista e indiciou um suspeito de tentar matar um membro de uma gangue formada por punks. Atualmente, a delegacia tem 25 grupos de punks e neonazistas identificados.
Rogério Moreira, 22, supostamente integrante do grupo neonazista Front 88, foi indiciado pela tentativa de assassinato, em agosto de 2008, de um adolescente que pertencia à gangue Vício Punk, rival do grupo do suspeito. O crime foi planejado, segundo a polícia, e aconteceu na rua Paim, no bairro Bela Vista (centro de São Paulo). Outros sete adolescentes também participaram da emboscada juntamente com Moreira e estão sendo investigados.
O membro da gangue neonazista, segundo a delegada-titular da Decradi, Margarete Barreto, foi agredido pelo adolescente punk durante uma briga na rua Augusta, em abril de 2007. Nesta briga, o operador de scanner Ricardo Sutanis Cardoso, 22 morreu esfaqueado. Para a delegada, o crime ocorrido na rua Paim foi uma vingança contra o adolescente, que participou da briga onde Sutanis morreu e Moreira ficou ferido.
| Robson Ventura/Folha Imagem |
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| Material encontrado em residências de suspeitos de integrar gangues neonazistas |
"Estamos em uma escalada de crimes de intolerância, que um tem ligação com o outro. Existe uma cobrança das dívidas entre as gangues. Mata um do Front, o Front vai atacar um do grupo rival. É o que aconteceu com o Chuck, na frente da Rota [em outubro de 2007], também foi resquício de briga de gangue. Então eles estão brigando. Nossa finalidade é descobrir a motivação, além de fazer a prevenção porque eles também perseguem outros grupos como negros, judeus e homossexuais", afirmou a delegada, citando outro crime que ocorreu em 2007.
Na ocasião, cerca de 20 punks atacaram um adolescente de 17 anos a menos de 100 metros da sede da Rota (Ronda Ostensivas Tobias de Aguiar), da Polícia Militar. Segundo a delegada, o adolescente atacado também pertencia ao Front 88. Nove pessoas foram presas.
"Eles [gangues] declararam guerra e toda vez que se confrontam alguém corre o risco de morrer. Essa é nossa preocupação. As pessoas estão morrendo na cidade em decorrência de brigas entre gangues".
Além de apreender material --facas, soco inglês, machadinha, coturnos com bico de aço e estiletes-- a polícia também encontrou objetos de apologia ao nazismo, como uma bandeira de São Paulo com a suástica. Foram feitas diligências de busca e apreensão em oito lugares.
"Com as diligências consegui indiciar um dos membros do grupo e com isso atualizar o banco de dados em relação aos grupos de intolerância e os simpatizantes desses grupos", afirmou a delegada.
Moreira foi indiciado porque foi reconhecido pelo adolescente punk. A delegada pediu a prisão do suspeito, que foi negada pela Vara do Júri, que concedeu somente os mandados de busca e apreensão. Com a apreensão do material de apologia ao nazismo e os objetos usados como arma, a delegada espera conseguir com que a Justiça acate a prisão do suspeito.
A Polícia Civil não informou se Moreira já possui advogado de defesa.
Ramificações
A Decradi está mapeando a ramificação do Front 88 e outros grupos neonazistas em gangues de outros Estados, principalmente Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina.
Segundo a delegada, investigações já apontaram que integrantes do Front 88 foram para uma reunião no Paraná. Para fazer a viagem, os membros do grupo paulista receberam dinheiro de Ricardo Barolo, acusado de mandar matar o casal Bernardo Dayrell Pedroso e Renata Waechter Ferreira no dia 20 de abril deste ano em Quatro Barras (PR).
Outras cinco pessoas também foram denunciadas à Justiça pelo duplo homicídio. O crime ocorreu por uma suposta disputa de poder entre Barolo e Pedroso. De acordo com a Promotoria, o grupo teria combinado a morte de Pedroso para o dia 20 de abril, após um churrasco em que se "comemoraria" os 120 anos de nascimento de Adolf Hitler. Pedroso e a namorada foram mortos a tiros naquele dia.
De acordo com a titular do Decradi, fotos de membros do Front 88 na reunião no Paraná foram encontradas pela polícia e anexada a um dos inquéritos que investiga o grupo. "Na reunião, que aconteceu no dia 7 de setembro de 2008, eles ouviram músicas e discursos relacionados ao nazismo", disse a delegada.
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