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Cotidiano
27/06/2009 - 09h53

Recebi extrema-unção duas vezes, diz Chiquinho Scarpa

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DANIEL BERGAMASCO
da Folha de S.Paulo

O empresário Chiquinho Scarpa, 57, lendário playboy paulistano, recuperou nesta semana a lucidez, após quase dois meses internado no Hospital Sírio-Libanês --a maior parte do tempo, em coma induzido.

Nesse período, ele conta, seu estado era tão grave que recebeu a visita de dois padres para a "unção dos enfermos" [sacramento que visa aliviar e salvar cristãos com saúde debilitada, além de perdoar seus pecados, se a confissão for impossível, na Igreja Católica], antes chamada de "extrema-unção".

Em 17 de maio, Scarpa foi internado após o rompimento de ponto da cirurgia bariátrica (redução do estômago) a que se submetera dois dias antes. Ontem, demonstrando entusiasmo com a recuperação, ele falou à Folha por telefone.

*

FOLHA - Como é voltar para casa?
CHIQUINHO SCARPA - Saí do hospital faz um dia e meio. Depois de ter sofrido cinco operações e ter recebido a extrema-unção duas vezes, nada melhor do que estar em casa.

FOLHA - Extrema-unção?
SCARPA - É verdade. Fui dado como clinicamente morto duas vezes, então minha família chamou o padre Gonçalo uma vez e, na segunda, para não repetir o padre, chamaram um da igreja Nossa Senhora do Brasil.

FOLHA - Como é acordar depois de 45 dias em coma?
SCARPA - Você acorda completamente dopado. Eu voltei a raciocinar faz uns quatro, cinco dias. Com o fato de eu ter deitado há muito tempo, os músculos desaparecem. Minha grande sorte é que sou faixa-preta em aikidô. Tenho uma vida esportiva muito rígida. O meu pessoal [dos treinos da arte marcial] é que dá aula para o GOE (Grupo de Operações Especiais da polícia de São Paulo). Agora já mexo as mãos, os braços. Só faltam as pernas, por isso tenho que exercitá-las todos os dias

FOLHA - Já leu reportagens sobre sua internação?
SCARPA - Como eu não estou articulando bem a vista, não li nenhuma notícia ou cartas. Na segunda-feira, quero responder a todos [os que lhe escreveram] de próprio punho.

FOLHA - O que causou a complicação da cirurgia?
SCARPA - A operação do estômago foi um sucesso. Quando cheguei aqui em casa, os pontos do estômago romperam e voltei para o hospital Sírio-Libanês. Peguei todas as bactérias possíveis e imagináveis. Tem uma bactéria muito rara que só três pessoas no mundo pegaram e eu fui a quarta pessoa. A gozação lá no Sírio-Libanês era essa: "Até isso você faz diferente". Fui cuidado por uma equipe de 12 médicos, todos de primeira.

FOLHA - Faltaram cuidados no pós-operatório?
SCARPA - Falam que eu me descuidei, mas não dava nem tempo, porque cheguei da operação à tarde e, à noite, eu voltei para o hospital. Nem dormi.

FOLHA - A cirurgia de redução de estômago era mesmo necessária?
SCARPA - Eu engordei muito. Estava com 118 kg, o que é muito para 1,71 m de altura. No hospital, perdi líquido, e saí pesando 102 kg. Mas acho que não emagreci [em gordura]. Quero chegar aos 80 kg. Disseram que tomei muito líquido após a cirurgia. Pode até ser. Mas tudo bem, agora estou em plena recuperação.

FOLHA - Arrependeu-se da cirurgia?
SCARPA - Por enquanto, estou arrependido. Mas é algo para o resto da vida. Minha irmã Fátima fez e perdeu 58 kg, mas deixaram o estômago dela menor, só pode comer 25 mililitros, senão vomita. O meu tem 500 mililitros. Dá para comer uma picanha inteira.

FOLHA - Qual sua programação para os próximos dias?
SCARPA - É aquela programação chata: acorda, faz fisioterapia, toma banho, almoça... Agora já estou fazendo a barba. Ando meia hora com fisioterapeuta, depois acordo e vou ver um filme. Mas não entrei mais na internet, não mexi mais em computador. E nem os amigos eu posso receber pessoalmente. Os médicos proibiram qualquer emoção. Agora a Rosi (sua mulher) passou o telefone para você debaixo do pano, porque assim falo com alguém. Estou falando dentro do banheiro. Se [os enfermeiros] me pegam aqui, me fuzilam.

 

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