Hospital municipal recusou remoção, diz mulher que perdeu bebê no Rio
DIANA BRITO
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Em depoimento na 14ª DP (Leblon), no Rio, Manuela Costa, 29, que perdeu o bebê na última quinta-feira (2), disse que motoristas do hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, zona sul, se recusaram a removê-la para outra unidade durante o trabalho de parto.
A jovem chegou a ser atendida no hospital pelo obstetra José Roberto Ferraz, que informou que ela não poderia permanecer no local porque não havia acomodações naquele momento. Ela relatou que o médico rabiscou em um de seus braços o nome da unidade que deveria procurar e as linhas de ônibus que a levariam até o local. O mesmo ocorreu com outras duas mulheres.
"Assim que ela deixou o hospital Miguel Couto, depois de meia hora de espera e de uma hora e meia de atendimento, o companheiro dela pediu ajuda a motoristas de duas ambulâncias que estavam na porta da unidade, mas eles se recusaram a socorrê-la também. Eles disseram que só podiam fazer isso com ordens superiores", afirmou o advogado da paciente, Michel Assef.
O advogado disse que Manuela Costa não pediu para ser removida de ambulância para o médico porque estava se sentindo muito mal e esqueceu do transporte. "Ela estava sentindo fortíssimas dores e não tinha condições de pedir nada para ninguém", disse o advogado, que ainda destacou que o marido da paciente não pôde acompanhá-la no interior do hospital.
Debilitada e com aparência de cansaço, Manuela prestou depoimento na tarde de hoje na delegacia do Leblon, acompanhada da mãe adotiva e de uma prima. Ao sair da delegacia, ela se emocionou por ter dificuldade de andar e foi amparada pelos parentes e pelo advogado.
No dia 2, Manuela Costa apresentou um grave quadro de descolamento da placenta e acabou perdendo o bebê, possivelmente no trajeto do hospital Miguel Couto (zona sul) para a maternidade Fernando Magalhães, em São Cristóvão, na zona norte da cidade, segundo a delegada titular da 14ª DP (Leblon), Tércia Amoedo.
A delegada ainda disse que o médico acusado de omitir socorro foi intimado a depor às 15h desta quinta-feira (9). Para a delegada, a omissão de socorro do médico teria sido a causa da morte do bebê.
"Em princípio, a gente está apurando uma omissão de socorro com o resultado morte e é muito provável que a gente conclua nesse sentido. Também é possível que esteja descartada a acusação de homicídio", disse a delegada.
Segundo a delegada, a pena para omissão de socorro simples é de seis meses. Porém, se for comprovada que a omissão é qualificada pelo resultado de morte, a pena aumenta três vezes e passa a ser de 18 meses.
"Isso é um procedimento que será encaminhado ao Juizado Especial Criminal e o juiz vai decidir a pena. Por enquanto, um inquérito criminal foi instaurado", disse a delegada.
O advogado de Manuela afirmou que vai promover uma ação por dano moral contra o médico e a Prefeitura do Rio, além mover uma acusação de crime de calúnia, injúria e difamação contra uma médica do hospital Fernando Magalhães, que teria dito que Manuela usou drogas.
Outro lado
A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde justificou a falta de atendimento no hospital municipal Miguel Couto por um erro do médico, que não atendeu corretamente a paciente e nem chegou a encaminhá-la a outra unidade através de uma ambulância da unidade. Segundo a secretaria, não cabe aos motoristas das ambulâncias julgar quem eles devem transportar. "Uma sindicância foi aberta para apurar os fatos", informou o órgão.
Quadro grave
Segundo uma testemunha, além de Manuela, outras duas mulheres grávidas teriam sido orientadas pelo mesmo médico a buscarem atendimento na Maternidade Fernando Magalhães.
Ao dispensá-las, na última quinta-feira, o médico rabiscou em seus braços o nome da unidade que deveriam procurar e as linhas de ônibus que as levariam até lá.
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